*Redbull com Tequila 2008*

Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
6.2.08
23:55

Algodão nos olhos

A manhã do último dia em que Dona Nancy e seu Aílton acordariam juntos indicava o andar atípico das horas que por ali passariam das de todos os outros dias. Uma neblina baixou em Arcinto e, de tão densa, não se conteve pelas ruas e ocupava as casas se arrastando pelas frestas das portas, pelo abrir inocente e repentino das janelas. Paulo, um dos três filhos do casal, recém-viúvo, lembrou-se de imediato dos cegos de Saramago em seu ensaio e esboçou um desespero, logo desfeito ao ver Tony, o cão da família, de raça desconhecida, lançar seu vulto negro por entre a fumaça. Tinha adquirido uma inquietude por aqueles dias que o fazia, via de regra, ser o primeiro a se levantar da cama, inquietude essa, cá pra nós, de todos os modos compreensível, pois não é qualquer um que permanece irretocável dentro de seu juízo quando descobre que a esposa, ao contrário do que declarara à tarde, assim como em todas as outras quartas, amor, vou à igreja, ela se encontrava com o amante, diretor da empresa na qual trabalhava, no motel mais chinfrim da Avenida Brasil e bebia horrores, mas, naquele dia fatídico, encheu demais a cara e aprontou com o amante, como se já não bastasse aprontar com o marido, e o arranhou por completo, não pelo êxtase em horas devidamente conhecidas por nós, mas diante de uma recusa do jovem senhor em lhe presentear com um sapato bárbaro que tinha visto semana passada lá no shopping, e daí, um tiro de pistola no meio dos cornos - não reparem no trocadilho infame - não era de todo surpreendente.

Mas deixemos de lado as peculiaridades da vida alheia pois, apesar de sermos insconscientemente atraídos por esse tipo de notícia, não é essa história que pretendo contar. O fato é que a neblina perturbou os moradores, que, acostumados a saudarem um ao outro por suas janelas, viram um muro branco com alguns pontos de cores primárias bem esvanecidas. Comentou-se sobre a chegada de uma tempestde, fato prontamente negado por alguém que tinha visto cedo - mais cedo do que o horário do despertar do povo, se é que isso é possível - a previsão do tempo, que prometia sol escaldante até, óbvio, à chegada da noite. Cogitações acerca do clima daquele dia à tarde, aquele capricho da Natureza não era lá um presságio tão forte para a excentricidade do que viria a acontecer. Alguns se aventuraram pelas ruas e, aos esbarrões, reconheciam a gente e, pela voz, escolhiam a forma de tratamento: senhor, senhora, menina, viado etc. Quando a coragem contagiou a maioria do povo, no momento em que se formava a caravana dominical em direção à igreja, a mesma da já citada Ana Paula, que prometo aqui não mais incluí-la na história, nesse momento uma ventania tomou de assalto as ruas, levantou as saias das pudoradas, arrancou as folhas secas das amendoeiras, deu coragem às roupas para alçarem seus vôos sobre o bairro e levou consigo a neblina como um pincel a revelar, em meio à poeira, as já conhecidas figuras cotidianas e deixou aquele cheiro de chuva que dispensa pormenores. Ato contínuo, seu Aílton, lá da sua janela, bradava:

- Porra, Marquin, tu não disse que não teria chuva hoje?
- Parceiro, só disse o que tevê falou.

Alheio às alternâncias do tempo, o fluxo seguiu serenamente para a capela onde se realizaria dali a pouco a segunda missa do dia, já que a primeira, às seis, fora prestigiada apenas pelo padre e seus três acompanhantes, ou asseclas, ou companheiros, o que soar menos pejorativo. Entreouvia-se, no caminho, buchichos sobre o escândalo daquela supracitada que se encontra proibida de figurar por essas linhas, a simpática e inesperada neblina, o tema da missa do dia, dentre outros assuntos não menos importantes. Já fazia alguns anos que Seu Aílton não ia à igreja, segundo ele, por motivos particulares, que se tornaram os mais variados na boca dos mais criativos, porém, tinha acordado decidido a ir, e o evento matutino só fez reforçar a sua convicção. Dona Nancy, a única que realmente sabia o porquê de o marido não mais ter freqüentado as missas, viu com não bons olhos a iniciativa do marido, inquietando-se assim que soube pelo marido.

- Ué, por quê?
- Sei lá, gente, decidi - disse o jovem senhor. Acordei com vontade, poderia ser de comer, de beber, de cagar, mas foi de ir à igreja.
- Espere-me, pai, eu também vou - foi quando a mãe estatelou os olhos e decidiu não impedir.

À porta, a matriarca coçava a nuca, franzia a testa, mordia o canto da boca, balançava a perna e olhava para o marido como se conseguisse desvendar algo em seu pensamento, capturar algum movimento que denunciasse alguma suspeita, qualquer coisa que a fizesse seguir uma linha de raciocínio, escassas nas evasivas de seu Aílton durante a manhã. Como se sentisse a mulher no seu encalço, o patriarca se virou para a porta de casa ao mesmo tempo que a mulher bateu a porta. Deu dois passos e a porta abriu-se violentamente atrás dela.

- Mamãe - era Pedro, o filho do meio.

Dona Nancy, coitada, perdeu a fala. Esforçava-se para dizer um meu amor, que bom que você voltou, mas parecia que a voz se amedrontara ao ouvir aquela voz que não ouvia há anos.

- Mamãe, me ajuda. Acabei com a minha vida.

Tinha tanto a falar, mas as palavras refugavam em sua garganta, cada vez mais congestionada. Não havia outro remédio a não ser ouvir o que o outro filho aprontara. Durante o discurso, abandonou a poltrona e acendeu um cigarro que seu Aílton tinha esquecido ao lado da televisão, cujo noticiário dava conta de um crime passional. Não tinha ouvido uma palavra de Pedro, mas se suas cordas vocais tivessem cessaso a greve naquele momento responderia precisamente a tudo que lhe fosse perguntado, sem tirar os olhos da tela. Com os detalhes, o que Pedro relatara parecia ter saído do mesmo roteirista que guiou seu outro filho Paulo, até o nome daquela moça, aquela mesma história, a mesma desculpa, a mesma safadeza. E dona Nancy continuava sem dar um pio, ao passo que o filho falava feito uma matraca, teria mandado calar-lhe a boca se tivesse a voz, que me perdoem a constante lembrança de tal desgraça que lhe foi conferida, mas este é um pormenor do qual não podemos abrir mão, para o bom andamento da história. Sem mais, deu-lhe um tapa na cara e disparou até a porta que dava para a rua.

Novamente a neblina tomava conta das ruas de Arcinto e, agora, a chuva derramava a desgraça em cima da cidade, pobre dela, vítima naquele dia de tantos acontecimentos insólitos. Mas como a cidade pouco se importa com isso, permanece soberana, a acompanhar o destino de cada cidadão que faz dela uma cidade orgulhosa por ter tantos e tão apaixonados moradores. E, por ser assim, dona Nancy conhecia o caminho da igreja e uma neblinazinha boba não a faria errar o caminho de Deus. Seria demais pedir que ela soubesse exatamente onde os degraus brotavam do chão, e foi assim que ela tropeçou e foi parar aos pés do padre.

- Arrependei-te, irmã, por ter abdicado...
- Peraê, padre. Onde está meu marido?
- Sei lá. Saiu na metade da missa.

Volta dona Nancy para casa, já sem a neblina, mas toda encharcada da chuva que parecia ter se esquecido da ausência da outra e continuava chovendo. Abriu a porta daquela que julgava ser sua casa e encontrou um casal de jovens, dezesseis anos, no máximo, transando apoiados sobre a mesa: ela, com a saia levantada e ele nos trabalhos, com a bermuda pelos joelhos. Se dois porcos tivessem copulando no lugar dos jovens não faria a menor diferença, porque a jovem senhora atentava-se à mobília da casa e, realmente, não condizia com os imponentes armários que se erguiam dos pisos como intermináveis sentinelas. Bateu a porta e viu a neblina de volta, sem a chuva. Achou graça na intermitência de Deus e resolveu encarar a cegueira em busca da casa, e ainda hoje anda pelas ruas, à espera do momento em que encontrará sua outra filha, a terceira que falta na história, para contar-lhe que morreu porque o marido tinha descoberto seu amor secreto em meio às mentiras que inescrupulosamente vomitava em cima dele.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
24.1.08
23:50

Boa Sorte [tomo 2]

Antes de tudo, devo pensar em mim também. Sou muito complicada, me entendo - ou não. Sou casada com um homem que nunca amei, mas mesmo assim tive dois filhos. Ironicamente, o único homem que me amou de verdade. Às vezes, quando me deito, finjo dormir e espero ele pegar no sono para observá-lo. Não sinto pena dele, seria muito cruel se pensasse assim. Todos os casos que tive fora do casamento rolaram com uma motivação além da minha frustração na vida a dois. Seja paixão, curiosidade ou algo que o valha.

Vejo as imbecis que andam comigo e saem com outros garotos. Especialmente uma. Não entendo como elas têm a cara-de-pau de, logo após terem dado para outro cara, dizer eu te amo para os namorados. Eu faço o que faço porque realmente não amo o meu esposo; caso contrário, seria fiel mesmo que o Zé, aquele do meu trabalho com quem eu dava umazinha de vez em sempre - por esse eu me apaixonei. Tinha um jeito de falar comigo, era como se quebrasse as minhas pernas. Por um bom tempo comeu na minha mão, eu chamava e a gente ia ao motel. Foi um caso mal resolvido, garanto que se fosse em outra época, ele estaria no lugar do meu marido.

Hoje de manhã, antes de sair, enquanto fumava, vi meu pai deitado onde o meu marido se deitava quando ele não queria transar comigo e eu o expulsava da cama. Apesar de tudo, sinto falta dele. Meu pai ali, no lugar dele, me fez refletir sobre a ausência e, principalmente, a reposição de certas pessoas cuja importância em nossas vidas parece ser eternamente inviolável. Poderia estar ali, deitado junto a ele, minha mãe. Mas esse é outro assunto. Preferi pensar em como vou proceder para convencer meu marido a voltar para casa. Tentei me livrar dele, mas não consigo. Será um carma na minha vida. Tentei refazer minha vida com outro, dentro desses meses em que ele esteve fora. Era até legal, se dava bem com meus amigos - não com os do trabalho, nunca o levei até lá -, mas vacilava muito. Não queria algo sério, erguer uma vida, sustentar uma família, assumir responsabilidades de homem, enfim.

No almoço, fiz o máximo para chamar meus amigos para perto de mim. Temporariamente, desisti dela. Vou provar a ela que estou certa e eles vão se foder sozinhos. Estava na mesa, junto à sua mais nova amiga, aquela vaca, outra que deu pro cara do meu trabalho, compromissado com uma moça tão linda, acho uma puta sacanagem isso. Quando eu dei para ele, foi com outras nuances. Era simplesmente curtição, algo que devíamos acertar entre nós, certos jogos de olhares e palavras que precisavam ser desvendados. A princípio pensei que ele realmente havia se interessado em mim, mas percebi que ele é apenas um amigo do qual me orgulho em ter, babo ovo dele mesmo, fodam-se todos. Mas as duas ficaram lá na ponta da mesa, enquanto meus amigos e eu conversávamos sobre os mais variados assuntos. Quando as duas se levantaram para mijar e fofocar no banheiro, veio-me uma conversa que tive com o meu amigo cujo ovo eu babo - às vezes literalmente.

- Ah, num fode - eu disse - Tu brocha com qualquer mulher, teu pau é murcho!
- Pior é quando o cara pega uma vagabunda qualquer e tem vergonha de contar até para os amigos de trabalho.

Poucas pessoas sabem dessa foda que nós tivemos. Ele brochou, nunca um homem tinha brochado antes comigo, imagino com quantas outras o pau dele não subiu. Saí com todos os homens daquele escritório, nenhum deles negou fogo. Não admito que ele me esculache.

Saí do trabalho e fui na casa da minha sogra - ela me odeia. Pedi para conversar com meu esposo e, depois de muita conversa, voltamos de ônibus para casa. Fez a mochila em pouco tempo, pegou um punhado de roupas e, feliz da vida, foi me beijando de dez em dez metros. Senti um alívio no peito, pensando na minha faculdade, meu trabalho e nos meus filhos. Mais um salário dentro do lar me traz mais conforto.

Não me incomodo com o que os outros cochicham ao me ver passar de mãos dadas com ele. A maioria não sabe o que é ser casado, engolir sapos. Pelo menos em uma coisa eu concordo com aquela imbecil: um relacionamento pode sobreviver sem amor. Basta saber conviver e, de vez em quando, emergir numa realidade virtual, mentirosa, burra. É assim que vou vivendo, e muito bem, obrigada.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
21.1.08
23:31

Intermitente

Não se entendia. Orgulhava-se disso. Esforçava-se em ser obscuro no que dizia e fazia. Pensava nisso - seus devaneios delataram sua arrogância para si - enquanto via Vanessa caminhar pela ladeira onde morava, calçada por pedras vindas sabe-se lá de onde.

Era assim com ela. Um súbito medo - ou qualquer sentimento que faça alguém se retrair tanto quanto o medo - se apossava dele à medida que formulava um discurso sobre o que pretendia do futuro ao lado dela. Dali, do alto da janela, via a moça caminhar com dificuldade sobre as pedras. Um pouco atrás, descia uma morena escultural, barriga lisa, seios tãoo duros quanto ele desejava todas as noites antes de dormir, uma bunda que lhe excitava mesmo envolta pelo jeans discreto. Alternava os olhares entre as duas para acreditar no seu coração.

Lá de baixo, Vanessa fingia não vê-lo e perceber a morena mais parecida com aquelas do carnaval. Sabia que ele comparava os corpos, e até chegou a esboçar um sorriso. Confiante, teve a certeza de que lhe tinha escolhido não pela efemeridade da beleza que acompanhava a outra, mas por um pequeno capricho da vida que um dia fez com que, como nas histórias mais chumbregas de amor que costumava ler recostada na rede do seu quintal, dois corações cansados e ressabiados pelas promessas de amor tivessem tempo de se conhecer e entender.

Propositalmente, mudou seu rumo para a livraria em frente ao sobrado onde se localizava seu observador. Sem pestanejar, o rapaz correu para a loja, cheio de autores em mente. Apesar de terem passado vários meses - seis, talvez - sem se ver, ele tinha certeza de que se reencontraria dentro de uma livraria. Às voltas com as letras de Bukowski, Ubaldo, Cortázar e tantos outros com os quais costumava dormir, só tinha olhos para localizar Vanessa, que insistia em se esconder debaixo dos auto-ajuda, seção onde tinha certeza de que ele nunca visitaria. Dali, Vanessa observava um homem amargurado, curtido pelo sofrimento e abandono de sua própria alma; um refugo do homem que tanto amou e que, ali, não passava de um corpo entregue à sorte do mundo. Tentou odiá-lo, sem sucesso. Tentou amá-lo, não podia mais.

Foi descoberta enquanto penava sobre o olhar melancólico em um rosto com sinais de erosão. Acuada, ergueu-se e então se olharam, talvez como nunca em tanto tempo. Cada passo aproximava mais seus corpos, certa vez comprometidos a se fundirem. Cada avanço encorajava e desalinhava os olhares, chegando a ser simplesmente dois olhares em tantos outros ao se cruzarem, em frente à prateleira de Maiakovski.

Ela, já na calçada, pronta a retomar seu caminho ladeira abaixo, resistiu até a primeira lágrima escorrida. Era uma lágrima feliz, o alívio escorrendo pelo seu rosto, a certeza de que não amar também é humano, sem culpa; talvez o mesmo no rosto do rapaz ao compreender que nunca mais, em sua vida, a teria de volta. Talvez o mesmo a escorrer em seus lábios, antes de saltar da janela e concluir que não mais precisaria da vida, dando lugar a outros amores e sofrimentos.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
1.1.08
22:18

Vermelho

Céu colorido, sonoro, festivo. Ano novo, vida nova, roupa nova e homem novo - pelo menos pra Ritinha. Em meio à embriaguez e ao vômito ebulindo na garganta, ela só pensava nisso-naquilo. Noite quente, troncos desnudos e a fantasia da primeira pica que lhe daria a primeira alegria do ano - só pensava nisso-naquilo.

Silhueta realçada pelo úmido da sidra Cereser, eriçava comedidamente os faróis à espera de um alvo para apontar-lhe a intimação. E quem um dia ousou baixar a cabeça para tal afronta viu a própria reputação ruir - de brocha para baixo. Rubinho conhecia esse papo e tratou de se manter afastado - se dona Patroa sabe, não ia prestar. Mas Ritinha não presta se o assunto não for putaria e tratou de sombrear o coitado.

Até que se encontraram num ponto-cego da casa.

- Hahahahahahahaha! - a sorte é que era festa, e disso se ri também.

Limpando o canto da boca - não pelo pudim -, Ritinha reaparece, toda sorrindo. O curió do pai só fazia barulho, valioso que era. Rubinho, prudente, se agarrou à dona Patroa e sabe-se lá quantos orixás ouviram dele que não mais acontecesse o que aconteceu. E ela lá, no canto da sala, serelepe. Cruzava as pernas, calcinha vermelha.

- Quero mais - esgarçou a boca o quanto pôde para que ele entendesse de tão longe.

Ele riu, fazer o quê? Nem tudo é novo no Ano Novo.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
9.12.07
20:24

Boa sorte

Resolvi sair de casa disposta a me aborrecer. Acordei cedo, tão facilmente como sempre desejei nos dias de trabalho, tomei um banho demorado - sentia algo se fundindo a minha pele, meus poros sendo ocupados por qualquer sentimento estranho. Fiz algo que nunca tinha feito até então: me olhei no espelho por muito tempo, nua. Afastei-me, vi meu corpo deformado e pela primeira vez sorri para ele. Percebi que a minha barriga flácida faz meio que um smiley sorridente, daqueles do msn, acho que vi graça nisso.

Não gosto de casais sorridentes. Aquela melação abstrata, jurinhas de amor sem qualquer embasamento, não me agüento e, se não saio de perto, começo a falar merda. Ele diz que eu sou pérfida, dissimulada, nojenta, que não acredita em uma palavra do que eu digo. Mas o que acontece é que eu sou de lua, falo pra depois pensar. Isso vem de mim, não faço por mal. E, de mais a mais, quase tudo que eu falo é verdade, mas como são eles que estão sendo atingidos, vêem um fio de maldade no que eu falo. Eu estava meio cansada daquela palhaçada toda, de fazer parte disso e não ter forças para intervir. Sempre me julguei uma mulher forte, impulsiva, uma locomotiva que nem à base de porrada me seguravam, por que eu ainda não havia tentado me meter entre eles? É fato que somente a minha presença já o incomodava, poderia ficar quieta por horas, entre os dois, que ele, em alguns minutos, demonstraria impaciência, acenderia cigarros um atrás do outro e faria aqueles trejeitos que tanto me incomodava também, assopraria a fumaça com a boca meio torta para o alto, vendo-a serpentear pelo ar, pendendo a cabeça um pouco para a esquerda. Faço de tudo pra que ele não me veja reparando nele, geralmente eu consigo.

Eles dizem que se amam, eu duvido. Ela gosta demais dele, mas é uma criança, cago para o que ela me diz a respeito dele. Ela é um menina nova, tem tanta coisa pra aprender, não concordo que se prenda a ele - ainda mais ele -, tem que viver a vida para conhecê-la e saber que não vale a pena abdicar de tudo que há por aí, construído e divulgado para quem da sua geração quiser aproveitar. Tento explicá-la isso diariamente, no trabalho onde passamos junts todo o dia, mas ela está cega e surda de amor. Não vale a pena dedicar-se por inteiro a um amor, porque ele sempre acaba e sempre ficamos na merda, olhamos para trás e vemos o tempo perdido. Eu sou mais experiente que ela, tenho filhos, quero que ela me entenda, não cometa os mesmos erros que eu.

De vez em quando me seguro de vontade de jogar meu copo de cerveja na cara dele. Ver o vidro cortando sua pele, o líquido escoando o sangue, a gênese das feridas. É um sonho que tenho na minha vida. Sei que ele não vai deixar barato, não que ele vá tomar a mesma atitude que eu, mas - com certeza será assim -, depois de ter sido amparado por ela e meus amigos que simpatizam com ele, pedirá licença e virá com aquela cara de ódio, retalhada e vermelha, os olhos semicerrados, estalando os nós dos dedos. Sentaria-se de frente para mim e diria, com todas as palavras e letras, sem tirar nem pôr, com um sorriso sarcástico, algo que eu nem imagino, mas somente o sorriso me deixará desconcertada.

Sinto que estou chegando perto de livrá-la deste mal que é esse rapaz. E hoje resolvi finalizar esse meu plano infalível e maldito, como ele diria. Mesmo que para isso eu tenha que me valer de algum fato que ainda não tenha ocorrido.

continua...

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
3.12.07
23:37

A história do menino que não podia sonhar

Pedrinho se revirava todas as noites na cama. Brigava com o sono, expulsava aos berros e choros aquele anjo faceiro que insistia em se penduras nas suas pálpebras. Fora proibido pelo pais de sonhar, desde o dia em que tinha se deixado levar pela roda gigante cravejada nas nuvens. Por obra divina, flutuou por alguns instantes e caiu de cara no chão, diante dos olhos perplexos dos pais.

Um dia, ousou repetir seu pecado e saiu pela janela afora, no último andar bem perto do céu. Confundiu-se nos planos intermitentes do imaginário e deixou a herança da insônia para os pais e a vizinhança, incrédula, apontava com suas cabecinhas para fora dos cômodos e viram o menino se confundir com a poeira e as folhas secas, em direção a um céu de onde, julgava ele, nunca deveria ter caído. Rodou no carrosel dos anjos, feliz da vida, rodopiou por entre os arcanjos, furou as nuvens de algodão e foi entregue de volta, pela leveza do aroma das rosas, para a roda-gigante.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
20.11.07
22:58

Caçada

Nesse jogo de
Gato e rato
Eu dou o Tom

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
18.11.07
11:56

Beijim beijim, tchau tchau

Que a vida de cada um pode mudar assim num estalo, de um dia para o outro, ele já sabia. Mas acreditava fazer tudo tão bem feito, tão sincronizado, julgava ser um ótimo administrador, que nem lhe passava pela cabeça viver algo do tipo. Via vidas desmoronando ao seu redor, e nessas horas servia de conselheiro, no intuito de fazer tudo voltar à ordem natural, pois era o exemplo vivo de que era possível.

A última que aprontou fê-lo surpreender-se consigo próprio, não tanto pela sua postura, mas pelo que acabou se transformando. Ela, apaixonada. Ele, também. Mas, pensava, como poderia estar apaixonado? Não sabia como, mas estava. Afinal, não era outra coisa senão isso o fato de lembrar-se dela a cada decalque de anjinhos e capetinhas, a restrição que se fez em pedir beijinhos a quem quer que fosse, sair na calada da noite com seu carro - nem habilitado era - em busca dela, na casa dela, e tirá-la de casa, com o cabelo todo cacheado que ela odiava e ele amava, apenas para conversar. É bem verdade que, quase sempre, a conversa enveredava por outros caminhos mais tórridos, mas, garantem os dois, em nenhum momento saíram de casa com esse objetivo.

Teve uma época que sumiu. Lembra-se até da última vez em que esteve na casa dela. A família lá em cima, eles se escondendo, e aparece um primo dela.

- Dadá, vem jogar!

Não se sabe como, simpatizaram com ele. Minutos depois estavam lá em cima, ele sendo dizimado no tabuleiro de War.

- Estamos nos conhecendo - dizia ao irmão dela, os dois com a cara mais lavada do mundo. Lavada com água benta.

Sob a mesa, os dedos se enroscavam, trocavam olhares de diamante, se amavam, fato. "Eu sou louco", pensava ele. "Ele é louco", pensava ela. Definiram, em silêncio, desde o começo, não comentarem sobre os outros, mais especificamente sobre ele e o que ele tinha lá fora. Queriam ser um do outro, apenas isso, e por muito tempo conseguiram criar esse universo de paixão, tão intenso que os arrebatava e os deixava abismados, sem ter vontade alguma de explicar o que ocorria, foda-se, eles eram felizes.

Até que houve o hiato. Uma vida toda passou durante aqueles meses, sem, no entanto, isolarem-se. Amigos faziam a ponte de sobrevivência entre os dois, informavam cada passo, cada fato novo, cada pensamento, sentimento. Deram-se tempo para mitificarem-se, justificando o "eu tive um grande amor". Mas o fato é que um grande amor mantém-se até Deus sabe quando, ao contrário do que pensavam.

Ele soube do aniversário dela um dia depois. Nada de presente, eu vou é lá, pensou. E foi.

Reparou uma certa demora entre chamá-la no portão e a sua aparição na escada. Incrível, era vê-la e entrava em transe, uma corrente fria percorria seu corpo, seus olhos brilhavam de imediato, entregava-se à paixão.

- Meus parabéns atrasados!

Esperava um abraço efusivo. Não veio, apenas encostou aquele corpo baixinho em seu tronco e deu-lhe um beijo na testa, ao que ela sorriu no canto da boca e imediatamente ficou de lado para ele. Não pretendia mudar a postura dela, percebeu a que ela descera, deixaria-na livre para falar e fazer o que quisesse. Mas reconheceram-se, os corações se entreolharam, energizaram-se - talvez a paixão seja isso, uma troca de energias, daí pode-se explicar aquela tremedeira, o sangue gelado, enfim - e lá estavam, novamente abraçados, de vez em quando calados, como se quisessem apenas sentir a presença um do outro. Ela, que estava quase expulsando-o do seu coração, viu-se entregue a ele como se nunca tivesse querido outra coisa na vida. Xingava-se, no outro dia se molestou, com ódio do coração, mas sabendo que deveria resignar-se ao que era mais forte que seus braços, pernas, boca, olhos e tudo que julgasse ser de seu controle. Parecia que o destino reservara-lhe aquele peito vira-lata.

O que mais abalou o rapaz é que, um dia antes, tinha ligado para ela. Na primeira chamada, diz ela, estava tomando banho, tocou e não atendeu. Sinal de que não deveria mais falar com ela? Não, isso acontecia volta e meia, e a cumplicidade fazia com que um ligasse de volta pro outro, tal como aconteceu. Conversaram pelo celular por 17 minutos e 15 segundos, de modo que no final da ligação não sabia se tinha ligado ou recebido a chamada. Seja como for, há muito tempo não falava tanto tempo com alguém pelo telefone, se a memória não lhe enganou, a última vez tinha sido com ela própria, não sabia quando.

No dia seguinte, ao chegar em casa do trabalho, depara-se com um envelope passado pelo vão inferior da porta. Com desconfiança óbvia, abaixou-se e pegou o envelope, com aquele cheiro de tutti-fruti que sentia... Era uma carta com a letra dela, e pelas poucas linhas que quis ler, respondia a uma amiga que aceitou o pedido de namoro de algum rapaz. Pensou no ex dela, que até pouco tempo ela abominava, e sentiu um fio de ódio passar pelo coração. Via, talvez, a paixão mais arrebatadora da sua vida esvair-se pelos dedos da sua própria incompetência. Maldito destino que reservara Dadá para aquele Capetinha num momento tão inoportuno! Pensou em escrever cartas, ir até à casa dela, fazer o diabo a quatro, mas resolveu apenas esperar. Entender.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
6.11.07
00:15

Decisão

Há muito tempo a vida de Paloma deixara de ser uma novidade. O ciclo tão breve que sua vida cismava em repetir ao longo dos dias causava nela uma confusão de sensações que nem ela própria entendia, o que queria era fugir dali a qualquer custo, de qualquer forma. Olhar para o marido no sofá, confundindo-se com o tecido maltrapilho do que um dia foi um sofá caríssimo, cujo pagamento fora efetuado há dois ou três meses, sabe-se lá, que se foda o tempo, ele só fazia torturá-la.

Buscando no passado uma luz para o futuro é o caminho mais freqüente dos desesperados, e a partir daí, aceitando essa condição, entregou-se às últimas instâncias, nos caminhos mais improváveis da felicidade, aventurando-se em amores efêmeros, à sombra da suposta lentidão do marido, que julgava por ela ser dominado e, sendo assim, quando conseguisse romper a barreira da ignorância dele, teimosia em permanecer na vidadois tão perdida quanto o tempo em que ela se tinha perdido algum dia, teria as rédeas da situação. Talvez se soubesse que a obsessão se mostra com toda a força nos momentos de humilhação, pensaria tantas vezes fosse preciso até desistir do que fez.

Antes, vivia com a presença incômoda do marido que rejeitava a todo custo ao passo que, por convenção até certo ponto aceitável por vivermos em comunidade e não ser de interesse de todos que estão ali por simples falta de opção, persistia em beijos e abraços evasivos. Agora, seu espírito assombra os arredores da casa, turva a visão ao observar o sono dos filhos, deixa em falso o chão que pisa com o que aceitou ser a mais segura e talvez próspera das dezenas de aventuras que encarara ao longo dessa ilusão. Agora é o passo seco que desperta a já pesada consciência, é o nome ecoado quase sempre com inocência, sem referência ao próprio, que faz eriçar cada pêlo do corpo, é a ausência tão incômoda que chega a lhe acompanhar e a pega pelo pescoço, sufocando-a.

É a presença dele, sentado na beira da cama, com um óbvio volume à altura da cintura. É a escuridão formando mosaicos com a claridade, é a vertigem antes da hora. É o flagrante justificando cada ato calculado previamente naquela mente doentia, falsificada pela gana de um amor recíproco.

É o último aperto de mão, o último suspiro entre os dois. O olhar indeciso. O som abafado do estalo, o vermelho escorrendo pelas alvas faces das crianças.

É tudo que se passa e nada do que poderia ser feito, é o uivo do fim.



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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
27.10.07
18:55

Encontro

Os dois se olharam, cada um de sua calçada. Por mais vezes que se encontrem, até à morte, será sempre o mesmo primeiro e brilhante olhar, como se fosse o último e derradeiro.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
23.10.07
00:26

Humanismo

Não é sempre que sinto vontade de escrever. Li em alguns livros que a escrita pode ser uma forma de canalizar algo que te faça sentir mal, e é geralmente nesse tipo de situação que eu tento me dedicar à escrita. Se eu levar em conta a atmosfera pesada na qual eu vivo, deveria ter uma produção literária acima da média mundial.

Escrever é uma das muitas coisas que me salvaram do caminho mais curto para a morte - a bandidagem. À medida que eu invento - ou transponho para o papel - histórias sobre bandidos, sinto que me afasto mais desse mundo, ainda que não fisicamente. Com esse afastamento, passo a me importar menos com as rajadas de metralhadora noites adentro, com mais um amigo de infância morto pelo crime ou com outra invasão da polícia, cuja conseqüência é mais um dia dentro de casa, sem ir à escola. Na verdade, eles não são mortos pelo crime, o que ocorre é um fim inevitável de mais um fruto da omissão da sociedade na formação de seres humanos capacitados e, conseqüentemente, da omissão do Estado. Um governo só evolui quando o povo se incomoda, e a mobilização do povo só se dá quando há um show-manifestação, onde se gasta mais do que o suficiente para uma real ajuda para determinada causa. Pena que a maioria dos que moram aqui não sabem disso, se alguém perguntasse a eles porque moram aqui, diriam que não têm pra onde ir, e não estão nem um pouco interessados em ir à rua fazer com que suas vozes sejam ouvidas.

Minha família esteve perto de romper este regime de semi-castas da cidade grande, saltado da favela para a classe média suburbana, não fosse o jogo e meu pai a ser corrompido por ele. Lembro-me como se tivesse sido ontem, e sempre que olho para a porta de entrada, do dia em que o Marconi entrou aqui e levou televisão, aparelho de som 3 em 1, videocassete e um dos dois sofás retalhados que nós tínhamos. Lembrando que estávamos sem luz - a Light cortara uma semana antes -, pode-se imaginar a agonia que passamos, a decepção que mamãe teve e a tristeza que me acompanhou por noites a fio, me lembro que só fiquei triste, não tinha bagagem para definir um sentimento que criticasse a atitude do meu pai. Ao cabo de uma semana ele faleceu, quando tentou pagar a dívida entrando no crime de fato. Foi assassinado por policiais dentro de um banco. Do pouco que me lembro dele, não é bem trabalhada em mim a idéia do meu pai ter sido assaltante um dia, mas mamãe jura de pés juntos - sempre que rompo a barreira do remorso e faço ela falar - que foi assim. O remorso eu explico, talvez até vocês entendam no decorrer do texto, sem a necessidade de eu me explicar.

Mamãe casou com meu pai sabendo como ele era. Casou grávida, pensou que seria melhor viver com ele do que com meu avô, um pernambucano baixinho de voz rouca e altiva. Abortou meu irmão, quase dois anos depois de eu ter nascido, para não sofrer mais do que já sofria. Teve tanta dificuldade em me pôr na linha que na época achou prudente não ter outro, para não perder as rédeas e, ao invés de um, pôr dois bandidos na rua. Meu pai esperava que mamãe o amasse, ocupasse o espaço que o jogo se apossara ainda jovem, mas nunca sentiu isso dela, que sabia o tempo todo dessa espera. Tentou de várias formas, quase sempre pensando em mim, mas nunca conseguiu de fato convencê-lo a sair do jogo. Por conta disso, minha vida até os quatro anos é meio sombria, não me lembro de tanta coisa assim. Uma ou duas festas de aniversário, meu desmaio no banheiro, onde eu levei quatro pontos na testa depois de uma hemorragia intensa, algumas brigas entre meus pais, a dentadura da minha primeira babá em cima da pia do banheiro logo pela manhã, essa última é a mais clara lembrança desses quatro anos, com certeza. Minha mãe disse que um dia essa babá me ameaçou com aquela mesma dentadura. Não me lembro.

Meu pai morreu quando eu tinha sete anos, três meses depois que mamãe voltou para ele, após outros seis de separação. Nesse tempo eu morei com a minha avó e conheci mais de perto meu avô, que passei a admirar fervorosamente anos após a sua morte, quando eu percebi que a nobreza de um homem não se mede nem se apaga pelos erros, mas por nunca renegar sua condição e fazer dela, em vida, um exemplo para quem quer que possa ver. Daí vem a escolha pelo meu avô; meu pai era covarde, batia na minha mãe e cagava de medo quando sentava-se à mesa com os bandidos para jogar ronda e chorava ao levar deles tapa na cara. Não sei se ele recuperaria esse tempo perdido se algum dia se livrasse do jogo, mas sempre me pergunto porque Deus não nos deu essa chance. A morte do meu pai foi traumática para a família, que via nele um líder, por ser mais velho, e terem se acostumado a ele como uma referência, sem com isso ter trabalhado outro irmão para suplantá-lo, caso fosse preciso. A partir daí, me afastei completamente deles, e eles se afastaram da gente, não sei se por negligência familiar ou por não saberem mesmo como agir.

Sempre estudei bastante, enfiei na minha cabeça que deveria fazer apenas isso, e me convencia a cada ano, após a morte do meu pai, a cada corpo sendo arrastado na porta da minha casa. Mamãe nunca deixou me faltar nada, apesar de sofrer de uma leve esquizofrenia e, por vezes, precisar da ajuda dos bandidos para se acalmar. Tomava remédios controlados e brigava por mim diante de qualquer fuzil que viesse à porta da minha casa me aliciar para o crime. Certos bandidos esquecem, em sua própria comunidade, que ser como ele é muito fácil e é uma peça de fácil substituição. Um deles não pensou quando apontou a arma na cara da minha mãe e disse a ela que eu teria que ajudá-lo no tráfico ou ela morreria. Ele sempre teve o cuidado de fazer as ameaças quando eu não estava em casa, mas nesse dia eu cismei de matar aula pela primeira vez e passava aqui por perto no instante em que ela renegou meu destino escrito por aquele bandido, recebendo, ato contínuo, um tapa na cara. Não corri em cima dele nem dela, me escondi na lanchonete, esperando a hora de ele sair dali para voltar para casa. Na mesma semana mamãe me transferiu para uma escola de tempo integral, o transporte me deixava na porta da favela, e aquele bandido me encarava todo dia que eu passava por ele. Tinha que dissimular uma expressão de indiferença para não alertá-lo do perigo de eu tê-lo visto naquele dia. Passamos uns quatro anos nessa rotina, nesse meio tempo pouca coisa aconteceu, à exceção da morte do meu avô, minha mãe ter parado de fumar e beber quase ao mesmo tempo em que eu comecei. Quando o Juninho - o cara que tinha batido na minha mãe - me viu fumando um cigarro, deve ter saltitado de alegria.

Recebi do cara, por intermédio do Fabinho, um amigo de infância - eu era criança ainda, apesar de fumar e beber escondido - que acabou por cair nas teias do tráfico, um convite. Ganharia quantos tênis eu quisesse, quantas bermudas e bonés só para ficar na porta da favela e avisar quando os canas chegassem. Não dei uma resposta definitiva, mas fiquei de passar na casa dele no dia seguinte. Tive uma noite em claro, as imagens dos corpos arrastados e a do meu próprio pai, que não vi e evitava a todo custo formá-la em meus sonhos, pululavam e se fundiam em histórias idênticas, como mesmo princípio e fim. Não entendo porque dediquei aquela noite a pensar nisso, já que tinha muito bem definido um plano para tudo isso.

Pela manhã, bati à porta do escritório do Juninho e ele abriu um sorriso que até me deu medo, como se já soubesse cada palavra do que eu diria a partir daquele momento. Contei toda uma história sobre injustiça social, que estava ali para brigar pelo direito dos moradores e colaborar para que um dia o poder paralelo suplantasse o poder público etc. O fato é que o cara acreditou e me pegou pela mão para conhecer o movimento, toda a hierarquia que tinha que ser respeitada. Um poder muito bem distribuído, com funções definidas para cada cabeça, ações sincronizadas que invariavelmente deveriam ser analisadas e aprovadas pela alta cúpula do tráfico, análise de riscos, me senti numa das empresas que eu vislumbrava trabalhar quando eu lia os meus romances. Na hora não compreendi, mas hoje eu entendo o êxito dessas facções, anos-luz à frente de toda a segurança pública.

Precisei de apenas uma semana para executar meu plano: matar o Juninho. Com o aval do Tunga, seu arqui-rival e sedento pelo poder da favela, consegui um lugar a sós com o então chefão, com a desculpa de discutir alguns pontos frágeis das bocas. Mais uma vez graças aos livros, eu descobri que arsênico era um veneno foda e consegui com um amigo da escola que tinha um pai químico, ou algo do tipo. Durante a conversa, enquanto bebíamos nossa Brahma - até aquele momento, só bebia Cintra quente escondido de mamãe - ele escapou e tendeu o celular, me dando as costas. Foi a hora em que joguei o veneno em seu copo e aguardei ansiosamente pelo próximo gole dele. Quando ele começou a se estrebucha no chão, reagi, com uma pontinha de sorriso no canto da boca e no fundo da alma, surpreso, atônito. Corri à porta gritando por socorro, ao que os baba-ovos de Juninho invadiram o escritório mirando olhares desconfiadíssimos sobre a minha figura acuada, pálida. Fiz-me de desentendido e corri em direção à minha casa, abraçando-me à mamãe e vendo o filme sobre meu pai morto passar com toda a força, com toda a violência que um assassino merece. Chorando horrores, mamãe me deitou sobre seu colo e me fez cafuné até eu dormir. Novamente os pesadelos me perturbaram, dessa vez com mamãe correndo atrás de mim com um pé das suas Havaianas rosa nas mãos, gritando:

- Vem cá, seu filho da puta, vou te matar!
- Não posso, a senhora também morrerá - eu dizia, também gritando.

Ao contrário do que eu imaginava, acordei tranqüilo, não comigo mesmo, mas com o fato de não haver movimentação alguma ao redor da minha casa. Esperava toda a tropa do Juninho espirrando baba por todo o canto, em busca do meu cadáver. Mas soube que Tunga armou um álibi incontestável para mim, jogando a culpa em cima de um de seus traidores, o Joca, cuja ambição, segundo o futuro líder do tráfico na favela, roubou sua insanidade e o fez cometer aquele crime bárbaro. Apesar de estar com um peso até hoje inimaginável na consciência, deu tudo certo, vinguei o que aquele safado do Juninho fizera com mamãe e ganhei a paz na favela, principal motivo da nossa permanência por aqui.

Hoje, somos protegidos por Tunga e temos a total liberdade dentro da comunidade, sem pra isso ter que nos envolvermos com o tráfico. Uma das ruas até ganhou o nome do meu pai, o beco onde moro, e, embora eu tenha passado por tudo isso, ainda me sinto bem aqui. Tento manter viva dentro de mim as boas lembranças, dos meus amigos de infância, das brincadeiras, das merdas que fazíamos juntos, mas aprendi a conviver com a dor, o sofrimento, fazendo-me mais forte e mais tolerante com a vida, o que me diferencia da maioria dos caras da minha idade: transitar entre o bem e o mal com a mesma naturalidade.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
30.9.07
11:50

Essencialidades

Uma conseqüência das mais fascinantes da vida é a possibilidade de histórias que ela nos entrega. Fato transcendental, o homem corre em busca de sentidos para a vida, hipóteses que expliquem tamanha dedicação em prol de algo que sequer se tem conhecimento pleno. Implica em justificar e, sobretudo, compreender as relações essenciais nas quais nossa vida se baseia.

Sou muito criticado quando se trata de expressar sentimentos tão óbvios, que me saltam aos olhos, mas que, para os outros, dependem de uma prova concreta. Concretizar sentimentos, não é preciso divagar tanto para notar aí uma discrepância, mas insistem em justificar paixões, amizades, amores, com demonstrações públicas de afeto, como diz o orkut. Fatos são semelhantes, ocorrem simultaneamente em vários lugares com vários propósitos, de modo que um mesmo fato pode ser usado para justificar tantos sentimentos quanto exigir a situação. É preferível crer em algo não visível, pode ser uma fuga para futuras decepções, acreditar no desconhecido é se encorajar escondendo-se em uma subjetiva inocência. Entretanto, quando se acredita em rosas vermelhas, mensagens românticas etc, só há duas explicações plausíveis: ou realmente se confia ou se esquiva do óbvio. De qualquer maneira, é de se expor ao risco. Diz-se muito do risco de cair de cabeça em uma - talvez vã - promessa, mas os que caem são os puros de alma, os esperançosos, os remanescentes daquele romantismo extinto nos dias de hoje.

Amizades sofrem do mesmo mal. Se você perceber um dia que todos te amam, que todos se dizem seus amigos, desconfie. Ser amigo se tornou, tal qual estar apaixonado, uma banalidade. Conheço tanta gente que se refere a qualquer conhecido como amigo ou amiga, sem diferença para uma amizade de anos ou aquela instantânea, na mesa do bar, que começo a me sentir ofendido quando se referem a mim dessa maneira. Não me vem à cabeça uma situação na qual me utilizei desse artifício para ser bem quisto em algum lugar. Posso até te conhecer, achar você bem legal, gosto de você, mas só te conheço, não sou teu amigo. Sou fã dos ditados populares - os mais chumbregas - por conseguirem sintetizar algo que às vezes é estudado por décadas, discutido entre grupos e grupos de cientistas, resultando em uma dissertação repleta de eufemismos - talvez isso justifique o efemerismo com que se é tratado hoje o assunto.

Amor e amizade só se reconhecem com a correspondência, e só se afirmam com a falta. Não se tem notícia em minha curta vida de alguém que tenha passado um dia maravilhoso com alguém e tenha chegado em casa dizendo "estou apaixonado(a)". Nos rendemos ao amor ou a uma amizade por meio de um desabafo, diante de lágrimas, quando mais precisamos delas. A ausência não convive com a felicidade. O poeta que diz amar quando sofre se equivoca em afirmar que é ali que o amor reside. Notou-se sua presença naquele momento, e quando é inevitável - e sempre é - ser feliz sozinho, o que resta é cair no mundo e procurar a nova tampa da panela, esperando sempre uma reciprocidade. Afinal, fatos são fatos, e o mais incontestável e incômodo é saber que, em algum canto, haverá alguém que irá suplantar, assim que houver oportunidade, com surpreendente naturalidade o que era tratado com tanta complexidade.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
9.9.07
21:00



Fuga n° ∞

Aos poucos, a brasa tomava conta do cigarro abandonado na mão fora do carro, com a ajuda do vento que redesenhava o mosaico de folhas secas na calçada onde tinha parado seu carro. Esperava por ela mais por desejo de lhe participar o texto que elaborara durante a semana do que por vontade de vê-la. Há quanto tempo não sentia vontade de vê-la, nem sabia mais. Pensou nisso enquanto seu olhar se perdia num dos incertos movimentos das folhas, na descida trepidante do carro na contramão, na freguesia moribunda da sorveteria ao lado - apenas duas pessoas entraram lá, uma era a mãe do balconista pedindo um real. Se não tivesse sabido que, a poucos metros de onde se localizava, há poucos dias, um homem fora assassinado com seis tiros no rosto, julgaria ser aquele bairro o ideal para criar sua família.

Aos poucos, o monstro - se conseguirmos fugir do sentido tenebroso que nos dá essa palavra, chegaremos ao real significado dela no assunto - que se formara e que o perseguia sem vontade alguma de abandoná-lo fora tomando forma e sentido. O encontro, casual, despretensioso, intermediado pro amigos, não lhe encheu os olhos. Tinha visto, sim, que era uma boa companhia, inquestionável, mas não o que passou a perceber já no primeiro arrastar de cadeiras, visando uma aproximação. As maquetes feitas com os guardanapos e canudos do lanche digerido há pouco tempo cantava a pedra. Concluíram, sem influência direta de ambos, que era a casa na qual morariam. O primeiro beijo, logo depois, viria com a certeza de que mais um amor de carnaval se iniciava, e com o passar dos dias, com o passar das festividades, não se encerrava. No dia dos namorados não acreditava mais em um desatino do coração nem um pouco carente - e isso lhe causava estranheza. Procurava respostas em seu próprio relacionamento, alguma falha, uma lacuna que lhe permitia a fuga em busca daquilo que lhe faltava. Mas não lhe faltava nada. Pelo contrário, não se lembrava de ter estado tão feliz em seus conturbados namoros. E ao mesmo tempo, quanta confusão, via uma diferença naquela colombina. Sentia que a cada dia se envolviam mais, suas almas se entrelaçavam com mais facilidade a cada encontro, assim como seus corpos se combinavam e se despiam de qualquer pudor. Já não via outra saída senão a de fugir do monstro, correr impulsivamente, sem hesitar em olhar para trás. Até o fez, mas no meio do caminho, não uma só vez, retornou e quis, do fundo do seu coração, recomeçar o caso, ainda que com a certeza de que novamente interromperia e fugiria, fugiria. Do alto de sua prepotência, ou baseado numa certeza explicável por apenas algum sentimento superior ao que lhe creditava naquela situação, imaginava o pranto da menina, a porção de tristeza que jogava no peito dela a cada sumiço. Decidiu, repentinamente, que o melhor a ser feito era aquilo mesmo, esperava apenas sua própria atitude.

O cigarro, enfim, expirara. Jogou a guimba fora e olhou para o corredor que se inclinava íngreme em uma escada cujo fim nunca soube ao certo, mas de onde sempre vira surgir suas coxas roliças - um dia comentou essa peculiaridade com a menina, cuja reação não se lembrava ao certo, estava meio bêbado. E ali, novamente, as esperava com tanta ansiedade. Por que certas coisas vêm em horas tão inoportunas, uma pergunta corriqueira agora se unia ao seu cotidiano, vivenciava tão intensamente essa questão, trabalhava em cima dela à medida que se desdobrava em não deixar transparecer ao outro hemisfério do seu círculo de amizades. Talvez fosse a clandestinidade o tempero de tudo, o medo da revelação deixava mais saboroso cada encontro bem-sucedido. Mas era pouco argumento para tanto rebuliço que lhe perturbava. Buscava mais de si, já que previa - e pouco tempo depois teve certeza - o que lhe esperava do outro lado. Buscava algo que a confortasse, já que se sentia incapaz de dar tanto amor desmedido a mais de uma. Parecia-lhe impossível, ao passo que não pensava em largar de mão algo tão intenso.

Manobrou o carro ao ouvir os passos descerem a escada. Nem reparou nas coxas. Nem quis. Cantou os pneus e apenas um comedido olhar pelo retrovisor pôde mirar o contorno da menina, desolada, no portão, e inventar as nuances que naquele momento deviam passear pelo rosto dela.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
25.8.07
23:45

Ventriloquismo

Ela examinava minuciosamente cada prédio à margem da pista. Na medida do possível, descobria seus defeitos, pinturas que desgrudavam deles, janelas desalinhadas, até se perder nos piscares insistentes dos carros à sua espera - eles descobriam, após uma certa insistência, que o buzinaço nem tão cedo faria efeito. O trânsito da cidade, principalmente às seis da tarde de uma quinta-feira chuvosa - ou chorosa de Deus, como ela preferia -, permitia esses desfrutes ao carioca. De propósito optou pelo carro, ao invés de mais uma vez em três anos ir de metrô para o trabalho. No meio da desordem dos carros de passeio, coletivos, e até um trator que se enganara e naquela hora era hostilizado pelos demais motoristas, cerrou os vidros e pôs no aparelho um cd de samba que comprara há algum tempo, é verdade, tinha se lembrado disso quando seus dedos tateavam o fundo do porta-luvas e descobriram aquela peça, quase esquecida ali dentro. Abriu um fio de sorriso; afinal, se sentia como aquele cd, esquecida, ainda que aquele tenha tido uma sorte melhor. Sorriu e chorou pela primeira vez no dia, serpenteava uma lágrima pelo seu rosto, alcançando os lábios, de onde foram alcançados pela ponta da língua. Parecia que o único prazer da sua vida naquele momento era salgar a boca com sua própria lágrima, tamanha a satisfação com que fizera aquilo. Piscaram novamente, os outros não a viam, mas do outro lado do vidro ela os via com aqueles olhares enfezados, lia nos lábios de alguns deles uns xingamentos quase sempre relacionados à mulher e direção.

Sentia-se bem ali. Não queria chegar em casa, como todo dia, e ver seus sentimentos ignorados, seu marido e dois filhos quase adultos virem seu choro e concluir que a mãe vivia assim mesmo, era problema dela com ela mesma, que não entendia a esposa e mergulhava na imbecilidade de que toda mulher era daquele jeito e que nós, homens, nunca as entenderíamos. Dava-lhe mais raiva o fato de não conseguir sair de casa diante daquele espetáculo de mesquinhez, por amar mais que tudo seus filhos e saber, no fundo, que eles nunca tiveram culpa e que apenas se acostumaram à sua tristeza. Por tudo isso, mais lhe valia o tédio do trânsito do que a triste rotina que o destino lhe dera.

De tempo em tempo, lia as horas no painel do carro, mais com medo do que com desejo de que o tempo passasse, como é comum a todos. Quem não conhece, não acredita, às vezes nem ela própria acredita que conheguiu suportar vinte e dois anos de um casamento que beirava o medíocre, a ponto de apenas no primeiro desses anos todos dormirem na mesma cama. Os filhos se confundiam com o casal; da mesma forma que passavam por esses períodos agonizantes, que de acordo com o conhecimento adquirido até então sobre relacionamentos não abria precedentes para um final feliz, viam os pais numa felicidade invejável, de mãos dadas pela rua, relembrando as datas marcantes, os fatos inesquecíveis, enfim, toda aquela história de casais felizes - e naquela casa os humores mudavam tão repentinamente que era impossível formular hipóteses sobre a real situação da família - de modo que tendiam a admitirem o melhor, se atinham à esperança de dias ensolarados para evitar as tempestades. E em meio aquela tempestade na qual ela era a única que aceitava ter vivido todos esses anos, o tempo tinha passado tão rápido, como passava naquele relógio no painel do carro. Quando viu, tinha saído da Avenida Brasil para a Dutra e dali para casa.

Saiu do carro para abrir o portão e nem fez questão de agilizar o procedimento para se molhar menos. Mais uma vez as lágrimas desceram e dessa vez sua língua não encontrou o salgado que se perdera nas águas celestiais. Seu choro tinha se misturado com o de Deus. Há tempos não encontrava uma paz tão confortante ao chegar em casa. De súbito, sentiu-se renovada, e não se dava ao trabalho de encontrar responsáveis. Passou pela cabeça a música, mas encontraria ali um refúgio tão acessível que se tornaria um vício e, como todos os outros, não lhe faria melhor, quando se desprendesse dele sabia que encontraria um mundo bem diferente do que conhecia, bem mais revirado. De fato, somente aproveitou o que sentia e entrou em casa.

Esquecera do próprio aniversário.

A animação do marido e dos filhos, diante do bolo meio deformado de chocolate com cobertura de chocolate e granulado de chocolate, perturbou-lhe a cabeça. Pensou em dar as costas e voltar para a rua, em protesto à cara-de-pau do marido em tentar camuflar a situação com uma festinha. Esboçou um sorriso como quem agradece sem querer, um reflexo do humano que tenta cultivar dentro de si. Chorou pela terceira vez e se entregou aos braços dos homens da sua vida e à ilusão cotidiana na qual devemos nos entregar em troca da harmonia familiar.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
6.2.08
23:55

Algodão nos olhos

A manhã do último dia em que Dona Nancy e seu Aílton acordariam juntos indicava o andar atípico das horas que por ali passariam das de todos os outros dias. Uma neblina baixou em Arcinto e, de tão densa, não se conteve pelas ruas e ocupava as casas se arrastando pelas frestas das portas, pelo abrir inocente e repentino das janelas. Paulo, um dos três filhos do casal, recém-viúvo, lembrou-se de imediato dos cegos de Saramago em seu ensaio e esboçou um desespero, logo desfeito ao ver Tony, o cão da família, de raça desconhecida, lançar seu vulto negro por entre a fumaça. Tinha adquirido uma inquietude por aqueles dias que o fazia, via de regra, ser o primeiro a se levantar da cama, inquietude essa, cá pra nós, de todos os modos compreensível, pois não é qualquer um que permanece irretocável dentro de seu juízo quando descobre que a esposa, ao contrário do que declarara à tarde, assim como em todas as outras quartas, amor, vou à igreja, ela se encontrava com o amante, diretor da empresa na qual trabalhava, no motel mais chinfrim da Avenida Brasil e bebia horrores, mas, naquele dia fatídico, encheu demais a cara e aprontou com o amante, como se já não bastasse aprontar com o marido, e o arranhou por completo, não pelo êxtase em horas devidamente conhecidas por nós, mas diante de uma recusa do jovem senhor em lhe presentear com um sapato bárbaro que tinha visto semana passada lá no shopping, e daí, um tiro de pistola no meio dos cornos - não reparem no trocadilho infame - não era de todo surpreendente.

Mas deixemos de lado as peculiaridades da vida alheia pois, apesar de sermos insconscientemente atraídos por esse tipo de notícia, não é essa história que pretendo contar. O fato é que a neblina perturbou os moradores, que, acostumados a saudarem um ao outro por suas janelas, viram um muro branco com alguns pontos de cores primárias bem esvanecidas. Comentou-se sobre a chegada de uma tempestde, fato prontamente negado por alguém que tinha visto cedo - mais cedo do que o horário do despertar do povo, se é que isso é possível - a previsão do tempo, que prometia sol escaldante até, óbvio, à chegada da noite. Cogitações acerca do clima daquele dia à tarde, aquele capricho da Natureza não era lá um presságio tão forte para a excentricidade do que viria a acontecer. Alguns se aventuraram pelas ruas e, aos esbarrões, reconheciam a gente e, pela voz, escolhiam a forma de tratamento: senhor, senhora, menina, viado etc. Quando a coragem contagiou a maioria do povo, no momento em que se formava a caravana dominical em direção à igreja, a mesma da já citada Ana Paula, que prometo aqui não mais incluí-la na história, nesse momento uma ventania tomou de assalto as ruas, levantou as saias das pudoradas, arrancou as folhas secas das amendoeiras, deu coragem às roupas para alçarem seus vôos sobre o bairro e levou consigo a neblina como um pincel a revelar, em meio à poeira, as já conhecidas figuras cotidianas e deixou aquele cheiro de chuva que dispensa pormenores. Ato contínuo, seu Aílton, lá da sua janela, bradava:

- Porra, Marquin, tu não disse que não teria chuva hoje?
- Parceiro, só disse o que tevê falou.

Alheio às alternâncias do tempo, o fluxo seguiu serenamente para a capela onde se realizaria dali a pouco a segunda missa do dia, já que a primeira, às seis, fora prestigiada apenas pelo padre e seus três acompanhantes, ou asseclas, ou companheiros, o que soar menos pejorativo. Entreouvia-se, no caminho, buchichos sobre o escândalo daquela supracitada que se encontra proibida de figurar por essas linhas, a simpática e inesperada neblina, o tema da missa do dia, dentre outros assuntos não menos importantes. Já fazia alguns anos que Seu Aílton não ia à igreja, segundo ele, por motivos particulares, que se tornaram os mais variados na boca dos mais criativos, porém, tinha acordado decidido a ir, e o evento matutino só fez reforçar a sua convicção. Dona Nancy, a única que realmente sabia o porquê de o marido não mais ter freqüentado as missas, viu com não bons olhos a iniciativa do marido, inquietando-se assim que soube pelo marido.

- Ué, por quê?
- Sei lá, gente, decidi - disse o jovem senhor. Acordei com vontade, poderia ser de comer, de beber, de cagar, mas foi de ir à igreja.
- Espere-me, pai, eu também vou - foi quando a mãe estatelou os olhos e decidiu não impedir.

À porta, a matriarca coçava a nuca, franzia a testa, mordia o canto da boca, balançava a perna e olhava para o marido como se conseguisse desvendar algo em seu pensamento, capturar algum movimento que denunciasse alguma suspeita, qualquer coisa que a fizesse seguir uma linha de raciocínio, escassas nas evasivas de seu Aílton durante a manhã. Como se sentisse a mulher no seu encalço, o patriarca se virou para a porta de casa ao mesmo tempo que a mulher bateu a porta. Deu dois passos e a porta abriu-se violentamente atrás dela.

- Mamãe - era Pedro, o filho do meio.

Dona Nancy, coitada, perdeu a fala. Esforçava-se para dizer um meu amor, que bom que você voltou, mas parecia que a voz se amedrontara ao ouvir aquela voz que não ouvia há anos.

- Mamãe, me ajuda. Acabei com a minha vida.

Tinha tanto a falar, mas as palavras refugavam em sua garganta, cada vez mais congestionada. Não havia outro remédio a não ser ouvir o que o outro filho aprontara. Durante o discurso, abandonou a poltrona e acendeu um cigarro que seu Aílton tinha esquecido ao lado da televisão, cujo noticiário dava conta de um crime passional. Não tinha ouvido uma palavra de Pedro, mas se suas cordas vocais tivessem cessaso a greve naquele momento responderia precisamente a tudo que lhe fosse perguntado, sem tirar os olhos da tela. Com os detalhes, o que Pedro relatara parecia ter saído do mesmo roteirista que guiou seu outro filho Paulo, até o nome daquela moça, aquela mesma história, a mesma desculpa, a mesma safadeza. E dona Nancy continuava sem dar um pio, ao passo que o filho falava feito uma matraca, teria mandado calar-lhe a boca se tivesse a voz, que me perdoem a constante lembrança de tal desgraça que lhe foi conferida, mas este é um pormenor do qual não podemos abrir mão, para o bom andamento da história. Sem mais, deu-lhe um tapa na cara e disparou até a porta que dava para a rua.

Novamente a neblina tomava conta das ruas de Arcinto e, agora, a chuva derramava a desgraça em cima da cidade, pobre dela, vítima naquele dia de tantos acontecimentos insólitos. Mas como a cidade pouco se importa com isso, permanece soberana, a acompanhar o destino de cada cidadão que faz dela uma cidade orgulhosa por ter tantos e tão apaixonados moradores. E, por ser assim, dona Nancy conhecia o caminho da igreja e uma neblinazinha boba não a faria errar o caminho de Deus. Seria demais pedir que ela soubesse exatamente onde os degraus brotavam do chão, e foi assim que ela tropeçou e foi parar aos pés do padre.

- Arrependei-te, irmã, por ter abdicado...
- Peraê, padre. Onde está meu marido?
- Sei lá. Saiu na metade da missa.

Volta dona Nancy para casa, já sem a neblina, mas toda encharcada da chuva que parecia ter se esquecido da ausência da outra e continuava chovendo. Abriu a porta daquela que julgava ser sua casa e encontrou um casal de jovens, dezesseis anos, no máximo, transando apoiados sobre a mesa: ela, com a saia levantada e ele nos trabalhos, com a bermuda pelos joelhos. Se dois porcos tivessem copulando no lugar dos jovens não faria a menor diferença, porque a jovem senhora atentava-se à mobília da casa e, realmente, não condizia com os imponentes armários que se erguiam dos pisos como intermináveis sentinelas. Bateu a porta e viu a neblina de volta, sem a chuva. Achou graça na intermitência de Deus e resolveu encarar a cegueira em busca da casa, e ainda hoje anda pelas ruas, à espera do momento em que encontrará sua outra filha, a terceira que falta na história, para contar-lhe que morreu porque o marido tinha descoberto seu amor secreto em meio às mentiras que inescrupulosamente vomitava em cima dele.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
24.1.08
23:50

Boa Sorte [tomo 2]

Antes de tudo, devo pensar em mim também. Sou muito complicada, me entendo - ou não. Sou casada com um homem que nunca amei, mas mesmo assim tive dois filhos. Ironicamente, o único homem que me amou de verdade. Às vezes, quando me deito, finjo dormir e espero ele pegar no sono para observá-lo. Não sinto pena dele, seria muito cruel se pensasse assim. Todos os casos que tive fora do casamento rolaram com uma motivação além da minha frustração na vida a dois. Seja paixão, curiosidade ou algo que o valha.

Vejo as imbecis que andam comigo e saem com outros garotos. Especialmente uma. Não entendo como elas têm a cara-de-pau de, logo após terem dado para outro cara, dizer eu te amo para os namorados. Eu faço o que faço porque realmente não amo o meu esposo; caso contrário, seria fiel mesmo que o Zé, aquele do meu trabalho com quem eu dava umazinha de vez em sempre - por esse eu me apaixonei. Tinha um jeito de falar comigo, era como se quebrasse as minhas pernas. Por um bom tempo comeu na minha mão, eu chamava e a gente ia ao motel. Foi um caso mal resolvido, garanto que se fosse em outra época, ele estaria no lugar do meu marido.

Hoje de manhã, antes de sair, enquanto fumava, vi meu pai deitado onde o meu marido se deitava quando ele não queria transar comigo e eu o expulsava da cama. Apesar de tudo, sinto falta dele. Meu pai ali, no lugar dele, me fez refletir sobre a ausência e, principalmente, a reposição de certas pessoas cuja importância em nossas vidas parece ser eternamente inviolável. Poderia estar ali, deitado junto a ele, minha mãe. Mas esse é outro assunto. Preferi pensar em como vou proceder para convencer meu marido a voltar para casa. Tentei me livrar dele, mas não consigo. Será um carma na minha vida. Tentei refazer minha vida com outro, dentro desses meses em que ele esteve fora. Era até legal, se dava bem com meus amigos - não com os do trabalho, nunca o levei até lá -, mas vacilava muito. Não queria algo sério, erguer uma vida, sustentar uma família, assumir responsabilidades de homem, enfim.

No almoço, fiz o máximo para chamar meus amigos para perto de mim. Temporariamente, desisti dela. Vou provar a ela que estou certa e eles vão se foder sozinhos. Estava na mesa, junto à sua mais nova amiga, aquela vaca, outra que deu pro cara do meu trabalho, compromissado com uma moça tão linda, acho uma puta sacanagem isso. Quando eu dei para ele, foi com outras nuances. Era simplesmente curtição, algo que devíamos acertar entre nós, certos jogos de olhares e palavras que precisavam ser desvendados. A princípio pensei que ele realmente havia se interessado em mim, mas percebi que ele é apenas um amigo do qual me orgulho em ter, babo ovo dele mesmo, fodam-se todos. Mas as duas ficaram lá na ponta da mesa, enquanto meus amigos e eu conversávamos sobre os mais variados assuntos. Quando as duas se levantaram para mijar e fofocar no banheiro, veio-me uma conversa que tive com o meu amigo cujo ovo eu babo - às vezes literalmente.

- Ah, num fode - eu disse - Tu brocha com qualquer mulher, teu pau é murcho!
- Pior é quando o cara pega uma vagabunda qualquer e tem vergonha de contar até para os amigos de trabalho.

Poucas pessoas sabem dessa foda que nós tivemos. Ele brochou, nunca um homem tinha brochado antes comigo, imagino com quantas outras o pau dele não subiu. Saí com todos os homens daquele escritório, nenhum deles negou fogo. Não admito que ele me esculache.

Saí do trabalho e fui na casa da minha sogra - ela me odeia. Pedi para conversar com meu esposo e, depois de muita conversa, voltamos de ônibus para casa. Fez a mochila em pouco tempo, pegou um punhado de roupas e, feliz da vida, foi me beijando de dez em dez metros. Senti um alívio no peito, pensando na minha faculdade, meu trabalho e nos meus filhos. Mais um salário dentro do lar me traz mais conforto.

Não me incomodo com o que os outros cochicham ao me ver passar de mãos dadas com ele. A maioria não sabe o que é ser casado, engolir sapos. Pelo menos em uma coisa eu concordo com aquela imbecil: um relacionamento pode sobreviver sem amor. Basta saber conviver e, de vez em quando, emergir numa realidade virtual, mentirosa, burra. É assim que vou vivendo, e muito bem, obrigada.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
21.1.08
23:31

Intermitente

Não se entendia. Orgulhava-se disso. Esforçava-se em ser obscuro no que dizia e fazia. Pensava nisso - seus devaneios delataram sua arrogância para si - enquanto via Vanessa caminhar pela ladeira onde morava, calçada por pedras vindas sabe-se lá de onde.

Era assim com ela. Um súbito medo - ou qualquer sentimento que faça alguém se retrair tanto quanto o medo - se apossava dele à medida que formulava um discurso sobre o que pretendia do futuro ao lado dela. Dali, do alto da janela, via a moça caminhar com dificuldade sobre as pedras. Um pouco atrás, descia uma morena escultural, barriga lisa, seios tãoo duros quanto ele desejava todas as noites antes de dormir, uma bunda que lhe excitava mesmo envolta pelo jeans discreto. Alternava os olhares entre as duas para acreditar no seu coração.

Lá de baixo, Vanessa fingia não vê-lo e perceber a morena mais parecida com aquelas do carnaval. Sabia que ele comparava os corpos, e até chegou a esboçar um sorriso. Confiante, teve a certeza de que lhe tinha escolhido não pela efemeridade da beleza que acompanhava a outra, mas por um pequeno capricho da vida que um dia fez com que, como nas histórias mais chumbregas de amor que costumava ler recostada na rede do seu quintal, dois corações cansados e ressabiados pelas promessas de amor tivessem tempo de se conhecer e entender.

Propositalmente, mudou seu rumo para a livraria em frente ao sobrado onde se localizava seu observador. Sem pestanejar, o rapaz correu para a loja, cheio de autores em mente. Apesar de terem passado vários meses - seis, talvez - sem se ver, ele tinha certeza de que se reencontraria dentro de uma livraria. Às voltas com as letras de Bukowski, Ubaldo, Cortázar e tantos outros com os quais costumava dormir, só tinha olhos para localizar Vanessa, que insistia em se esconder debaixo dos auto-ajuda, seção onde tinha certeza de que ele nunca visitaria. Dali, Vanessa observava um homem amargurado, curtido pelo sofrimento e abandono de sua própria alma; um refugo do homem que tanto amou e que, ali, não passava de um corpo entregue à sorte do mundo. Tentou odiá-lo, sem sucesso. Tentou amá-lo, não podia mais.

Foi descoberta enquanto penava sobre o olhar melancólico em um rosto com sinais de erosão. Acuada, ergueu-se e então se olharam, talvez como nunca em tanto tempo. Cada passo aproximava mais seus corpos, certa vez comprometidos a se fundirem. Cada avanço encorajava e desalinhava os olhares, chegando a ser simplesmente dois olhares em tantos outros ao se cruzarem, em frente à prateleira de Maiakovski.

Ela, já na calçada, pronta a retomar seu caminho ladeira abaixo, resistiu até a primeira lágrima escorrida. Era uma lágrima feliz, o alívio escorrendo pelo seu rosto, a certeza de que não amar também é humano, sem culpa; talvez o mesmo no rosto do rapaz ao compreender que nunca mais, em sua vida, a teria de volta. Talvez o mesmo a escorrer em seus lábios, antes de saltar da janela e concluir que não mais precisaria da vida, dando lugar a outros amores e sofrimentos.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
1.1.08
22:18

Vermelho

Céu colorido, sonoro, festivo. Ano novo, vida nova, roupa nova e homem novo - pelo menos pra Ritinha. Em meio à embriaguez e ao vômito ebulindo na garganta, ela só pensava nisso-naquilo. Noite quente, troncos desnudos e a fantasia da primeira pica que lhe daria a primeira alegria do ano - só pensava nisso-naquilo.

Silhueta realçada pelo úmido da sidra Cereser, eriçava comedidamente os faróis à espera de um alvo para apontar-lhe a intimação. E quem um dia ousou baixar a cabeça para tal afronta viu a própria reputação ruir - de brocha para baixo. Rubinho conhecia esse papo e tratou de se manter afastado - se dona Patroa sabe, não ia prestar. Mas Ritinha não presta se o assunto não for putaria e tratou de sombrear o coitado.

Até que se encontraram num ponto-cego da casa.

- Hahahahahahahaha! - a sorte é que era festa, e disso se ri também.

Limpando o canto da boca - não pelo pudim -, Ritinha reaparece, toda sorrindo. O curió do pai só fazia barulho, valioso que era. Rubinho, prudente, se agarrou à dona Patroa e sabe-se lá quantos orixás ouviram dele que não mais acontecesse o que aconteceu. E ela lá, no canto da sala, serelepe. Cruzava as pernas, calcinha vermelha.

- Quero mais - esgarçou a boca o quanto pôde para que ele entendesse de tão longe.

Ele riu, fazer o quê? Nem tudo é novo no Ano Novo.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
9.12.07
20:24

Boa sorte

Resolvi sair de casa disposta a me aborrecer. Acordei cedo, tão facilmente como sempre desejei nos dias de trabalho, tomei um banho demorado - sentia algo se fundindo a minha pele, meus poros sendo ocupados por qualquer sentimento estranho. Fiz algo que nunca tinha feito até então: me olhei no espelho por muito tempo, nua. Afastei-me, vi meu corpo deformado e pela primeira vez sorri para ele. Percebi que a minha barriga flácida faz meio que um smiley sorridente, daqueles do msn, acho que vi graça nisso.

Não gosto de casais sorridentes. Aquela melação abstrata, jurinhas de amor sem qualquer embasamento, não me agüento e, se não saio de perto, começo a falar merda. Ele diz que eu sou pérfida, dissimulada, nojenta, que não acredita em uma palavra do que eu digo. Mas o que acontece é que eu sou de lua, falo pra depois pensar. Isso vem de mim, não faço por mal. E, de mais a mais, quase tudo que eu falo é verdade, mas como são eles que estão sendo atingidos, vêem um fio de maldade no que eu falo. Eu estava meio cansada daquela palhaçada toda, de fazer parte disso e não ter forças para intervir. Sempre me julguei uma mulher forte, impulsiva, uma locomotiva que nem à base de porrada me seguravam, por que eu ainda não havia tentado me meter entre eles? É fato que somente a minha presença já o incomodava, poderia ficar quieta por horas, entre os dois, que ele, em alguns minutos, demonstraria impaciência, acenderia cigarros um atrás do outro e faria aqueles trejeitos que tanto me incomodava também, assopraria a fumaça com a boca meio torta para o alto, vendo-a serpentear pelo ar, pendendo a cabeça um pouco para a esquerda. Faço de tudo pra que ele não me veja reparando nele, geralmente eu consigo.

Eles dizem que se amam, eu duvido. Ela gosta demais dele, mas é uma criança, cago para o que ela me diz a respeito dele. Ela é um menina nova, tem tanta coisa pra aprender, não concordo que se prenda a ele - ainda mais ele -, tem que viver a vida para conhecê-la e saber que não vale a pena abdicar de tudo que há por aí, construído e divulgado para quem da sua geração quiser aproveitar. Tento explicá-la isso diariamente, no trabalho onde passamos junts todo o dia, mas ela está cega e surda de amor. Não vale a pena dedicar-se por inteiro a um amor, porque ele sempre acaba e sempre ficamos na merda, olhamos para trás e vemos o tempo perdido. Eu sou mais experiente que ela, tenho filhos, quero que ela me entenda, não cometa os mesmos erros que eu.

De vez em quando me seguro de vontade de jogar meu copo de cerveja na cara dele. Ver o vidro cortando sua pele, o líquido escoando o sangue, a gênese das feridas. É um sonho que tenho na minha vida. Sei que ele não vai deixar barato, não que ele vá tomar a mesma atitude que eu, mas - com certeza será assim -, depois de ter sido amparado por ela e meus amigos que simpatizam com ele, pedirá licença e virá com aquela cara de ódio, retalhada e vermelha, os olhos semicerrados, estalando os nós dos dedos. Sentaria-se de frente para mim e diria, com todas as palavras e letras, sem tirar nem pôr, com um sorriso sarcástico, algo que eu nem imagino, mas somente o sorriso me deixará desconcertada.

Sinto que estou chegando perto de livrá-la deste mal que é esse rapaz. E hoje resolvi finalizar esse meu plano infalível e maldito, como ele diria. Mesmo que para isso eu tenha que me valer de algum fato que ainda não tenha ocorrido.

continua...

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
3.12.07
23:37

A história do menino que não podia sonhar

Pedrinho se revirava todas as noites na cama. Brigava com o sono, expulsava aos berros e choros aquele anjo faceiro que insistia em se penduras nas suas pálpebras. Fora proibido pelo pais de sonhar, desde o dia em que tinha se deixado levar pela roda gigante cravejada nas nuvens. Por obra divina, flutuou por alguns instantes e caiu de cara no chão, diante dos olhos perplexos dos pais.

Um dia, ousou repetir seu pecado e saiu pela janela afora, no último andar bem perto do céu. Confundiu-se nos planos intermitentes do imaginário e deixou a herança da insônia para os pais e a vizinhança, incrédula, apontava com suas cabecinhas para fora dos cômodos e viram o menino se confundir com a poeira e as folhas secas, em direção a um céu de onde, julgava ele, nunca deveria ter caído. Rodou no carrosel dos anjos, feliz da vida, rodopiou por entre os arcanjos, furou as nuvens de algodão e foi entregue de volta, pela leveza do aroma das rosas, para a roda-gigante.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
20.11.07
22:58

Caçada

Nesse jogo de
Gato e rato
Eu dou o Tom

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
18.11.07
11:56

Beijim beijim, tchau tchau

Que a vida de cada um pode mudar assim num estalo, de um dia para o outro, ele já sabia. Mas acreditava fazer tudo tão bem feito, tão sincronizado, julgava ser um ótimo administrador, que nem lhe passava pela cabeça viver algo do tipo. Via vidas desmoronando ao seu redor, e nessas horas servia de conselheiro, no intuito de fazer tudo voltar à ordem natural, pois era o exemplo vivo de que era possível.

A última que aprontou fê-lo surpreender-se consigo próprio, não tanto pela sua postura, mas pelo que acabou se transformando. Ela, apaixonada. Ele, também. Mas, pensava, como poderia estar apaixonado? Não sabia como, mas estava. Afinal, não era outra coisa senão isso o fato de lembrar-se dela a cada decalque de anjinhos e capetinhas, a restrição que se fez em pedir beijinhos a quem quer que fosse, sair na calada da noite com seu carro - nem habilitado era - em busca dela, na casa dela, e tirá-la de casa, com o cabelo todo cacheado que ela odiava e ele amava, apenas para conversar. É bem verdade que, quase sempre, a conversa enveredava por outros caminhos mais tórridos, mas, garantem os dois, em nenhum momento saíram de casa com esse objetivo.

Teve uma época que sumiu. Lembra-se até da última vez em que esteve na casa dela. A família lá em cima, eles se escondendo, e aparece um primo dela.

- Dadá, vem jogar!

Não se sabe como, simpatizaram com ele. Minutos depois estavam lá em cima, ele sendo dizimado no tabuleiro de War.

- Estamos nos conhecendo - dizia ao irmão dela, os dois com a cara mais lavada do mundo. Lavada com água benta.

Sob a mesa, os dedos se enroscavam, trocavam olhares de diamante, se amavam, fato. "Eu sou louco", pensava ele. "Ele é louco", pensava ela. Definiram, em silêncio, desde o começo, não comentarem sobre os outros, mais especificamente sobre ele e o que ele tinha lá fora. Queriam ser um do outro, apenas isso, e por muito tempo conseguiram criar esse universo de paixão, tão intenso que os arrebatava e os deixava abismados, sem ter vontade alguma de explicar o que ocorria, foda-se, eles eram felizes.

Até que houve o hiato. Uma vida toda passou durante aqueles meses, sem, no entanto, isolarem-se. Amigos faziam a ponte de sobrevivência entre os dois, informavam cada passo, cada fato novo, cada pensamento, sentimento. Deram-se tempo para mitificarem-se, justificando o "eu tive um grande amor". Mas o fato é que um grande amor mantém-se até Deus sabe quando, ao contrário do que pensavam.

Ele soube do aniversário dela um dia depois. Nada de presente, eu vou é lá, pensou. E foi.

Reparou uma certa demora entre chamá-la no portão e a sua aparição na escada. Incrível, era vê-la e entrava em transe, uma corrente fria percorria seu corpo, seus olhos brilhavam de imediato, entregava-se à paixão.

- Meus parabéns atrasados!

Esperava um abraço efusivo. Não veio, apenas encostou aquele corpo baixinho em seu tronco e deu-lhe um beijo na testa, ao que ela sorriu no canto da boca e imediatamente ficou de lado para ele. Não pretendia mudar a postura dela, percebeu a que ela descera, deixaria-na livre para falar e fazer o que quisesse. Mas reconheceram-se, os corações se entreolharam, energizaram-se - talvez a paixão seja isso, uma troca de energias, daí pode-se explicar aquela tremedeira, o sangue gelado, enfim - e lá estavam, novamente abraçados, de vez em quando calados, como se quisessem apenas sentir a presença um do outro. Ela, que estava quase expulsando-o do seu coração, viu-se entregue a ele como se nunca tivesse querido outra coisa na vida. Xingava-se, no outro dia se molestou, com ódio do coração, mas sabendo que deveria resignar-se ao que era mais forte que seus braços, pernas, boca, olhos e tudo que julgasse ser de seu controle. Parecia que o destino reservara-lhe aquele peito vira-lata.

O que mais abalou o rapaz é que, um dia antes, tinha ligado para ela. Na primeira chamada, diz ela, estava tomando banho, tocou e não atendeu. Sinal de que não deveria mais falar com ela? Não, isso acontecia volta e meia, e a cumplicidade fazia com que um ligasse de volta pro outro, tal como aconteceu. Conversaram pelo celular por 17 minutos e 15 segundos, de modo que no final da ligação não sabia se tinha ligado ou recebido a chamada. Seja como for, há muito tempo não falava tanto tempo com alguém pelo telefone, se a memória não lhe enganou, a última vez tinha sido com ela própria, não sabia quando.

No dia seguinte, ao chegar em casa do trabalho, depara-se com um envelope passado pelo vão inferior da porta. Com desconfiança óbvia, abaixou-se e pegou o envelope, com aquele cheiro de tutti-fruti que sentia... Era uma carta com a letra dela, e pelas poucas linhas que quis ler, respondia a uma amiga que aceitou o pedido de namoro de algum rapaz. Pensou no ex dela, que até pouco tempo ela abominava, e sentiu um fio de ódio passar pelo coração. Via, talvez, a paixão mais arrebatadora da sua vida esvair-se pelos dedos da sua própria incompetência. Maldito destino que reservara Dadá para aquele Capetinha num momento tão inoportuno! Pensou em escrever cartas, ir até à casa dela, fazer o diabo a quatro, mas resolveu apenas esperar. Entender.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
6.11.07
00:15

Decisão

Há muito tempo a vida de Paloma deixara de ser uma novidade. O ciclo tão breve que sua vida cismava em repetir ao longo dos dias causava nela uma confusão de sensações que nem ela própria entendia, o que queria era fugir dali a qualquer custo, de qualquer forma. Olhar para o marido no sofá, confundindo-se com o tecido maltrapilho do que um dia foi um sofá caríssimo, cujo pagamento fora efetuado há dois ou três meses, sabe-se lá, que se foda o tempo, ele só fazia torturá-la.

Buscando no passado uma luz para o futuro é o caminho mais freqüente dos desesperados, e a partir daí, aceitando essa condição, entregou-se às últimas instâncias, nos caminhos mais improváveis da felicidade, aventurando-se em amores efêmeros, à sombra da suposta lentidão do marido, que julgava por ela ser dominado e, sendo assim, quando conseguisse romper a barreira da ignorância dele, teimosia em permanecer na vidadois tão perdida quanto o tempo em que ela se tinha perdido algum dia, teria as rédeas da situação. Talvez se soubesse que a obsessão se mostra com toda a força nos momentos de humilhação, pensaria tantas vezes fosse preciso até desistir do que fez.

Antes, vivia com a presença incômoda do marido que rejeitava a todo custo ao passo que, por convenção até certo ponto aceitável por vivermos em comunidade e não ser de interesse de todos que estão ali por simples falta de opção, persistia em beijos e abraços evasivos. Agora, seu espírito assombra os arredores da casa, turva a visão ao observar o sono dos filhos, deixa em falso o chão que pisa com o que aceitou ser a mais segura e talvez próspera das dezenas de aventuras que encarara ao longo dessa ilusão. Agora é o passo seco que desperta a já pesada consciência, é o nome ecoado quase sempre com inocência, sem referência ao próprio, que faz eriçar cada pêlo do corpo, é a ausência tão incômoda que chega a lhe acompanhar e a pega pelo pescoço, sufocando-a.

É a presença dele, sentado na beira da cama, com um óbvio volume à altura da cintura. É a escuridão formando mosaicos com a claridade, é a vertigem antes da hora. É o flagrante justificando cada ato calculado previamente naquela mente doentia, falsificada pela gana de um amor recíproco.

É o último aperto de mão, o último suspiro entre os dois. O olhar indeciso. O som abafado do estalo, o vermelho escorrendo pelas alvas faces das crianças.

É tudo que se passa e nada do que poderia ser feito, é o uivo do fim.



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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
27.10.07
18:55

Encontro

Os dois se olharam, cada um de sua calçada. Por mais vezes que se encontrem, até à morte, será sempre o mesmo primeiro e brilhante olhar, como se fosse o último e derradeiro.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
23.10.07
00:26

Humanismo

Não é sempre que sinto vontade de escrever. Li em alguns livros que a escrita pode ser uma forma de canalizar algo que te faça sentir mal, e é geralmente nesse tipo de situação que eu tento me dedicar à escrita. Se eu levar em conta a atmosfera pesada na qual eu vivo, deveria ter uma produção literária acima da média mundial.

Escrever é uma das muitas coisas que me salvaram do caminho mais curto para a morte - a bandidagem. À medida que eu invento - ou transponho para o papel - histórias sobre bandidos, sinto que me afasto mais desse mundo, ainda que não fisicamente. Com esse afastamento, passo a me importar menos com as rajadas de metralhadora noites adentro, com mais um amigo de infância morto pelo crime ou com outra invasão da polícia, cuja conseqüência é mais um dia dentro de casa, sem ir à escola. Na verdade, eles não são mortos pelo crime, o que ocorre é um fim inevitável de mais um fruto da omissão da sociedade na formação de seres humanos capacitados e, conseqüentemente, da omissão do Estado. Um governo só evolui quando o povo se incomoda, e a mobilização do povo só se dá quando há um show-manifestação, onde se gasta mais do que o suficiente para uma real ajuda para determinada causa. Pena que a maioria dos que moram aqui não sabem disso, se alguém perguntasse a eles porque moram aqui, diriam que não têm pra onde ir, e não estão nem um pouco interessados em ir à rua fazer com que suas vozes sejam ouvidas.

Minha família esteve perto de romper este regime de semi-castas da cidade grande, saltado da favela para a classe média suburbana, não fosse o jogo e meu pai a ser corrompido por ele. Lembro-me como se tivesse sido ontem, e sempre que olho para a porta de entrada, do dia em que o Marconi entrou aqui e levou televisão, aparelho de som 3 em 1, videocassete e um dos dois sofás retalhados que nós tínhamos. Lembrando que estávamos sem luz - a Light cortara uma semana antes -, pode-se imaginar a agonia que passamos, a decepção que mamãe teve e a tristeza que me acompanhou por noites a fio, me lembro que só fiquei triste, não tinha bagagem para definir um sentimento que criticasse a atitude do meu pai. Ao cabo de uma semana ele faleceu, quando tentou pagar a dívida entrando no crime de fato. Foi assassinado por policiais dentro de um banco. Do pouco que me lembro dele, não é bem trabalhada em mim a idéia do meu pai ter sido assaltante um dia, mas mamãe jura de pés juntos - sempre que rompo a barreira do remorso e faço ela falar - que foi assim. O remorso eu explico, talvez até vocês entendam no decorrer do texto, sem a necessidade de eu me explicar.

Mamãe casou com meu pai sabendo como ele era. Casou grávida, pensou que seria melhor viver com ele do que com meu avô, um pernambucano baixinho de voz rouca e altiva. Abortou meu irmão, quase dois anos depois de eu ter nascido, para não sofrer mais do que já sofria. Teve tanta dificuldade em me pôr na linha que na época achou prudente não ter outro, para não perder as rédeas e, ao invés de um, pôr dois bandidos na rua. Meu pai esperava que mamãe o amasse, ocupasse o espaço que o jogo se apossara ainda jovem, mas nunca sentiu isso dela, que sabia o tempo todo dessa espera. Tentou de várias formas, quase sempre pensando em mim, mas nunca conseguiu de fato convencê-lo a sair do jogo. Por conta disso, minha vida até os quatro anos é meio sombria, não me lembro de tanta coisa assim. Uma ou duas festas de aniversário, meu desmaio no banheiro, onde eu levei quatro pontos na testa depois de uma hemorragia intensa, algumas brigas entre meus pais, a dentadura da minha primeira babá em cima da pia do banheiro logo pela manhã, essa última é a mais clara lembrança desses quatro anos, com certeza. Minha mãe disse que um dia essa babá me ameaçou com aquela mesma dentadura. Não me lembro.

Meu pai morreu quando eu tinha sete anos, três meses depois que mamãe voltou para ele, após outros seis de separação. Nesse tempo eu morei com a minha avó e conheci mais de perto meu avô, que passei a admirar fervorosamente anos após a sua morte, quando eu percebi que a nobreza de um homem não se mede nem se apaga pelos erros, mas por nunca renegar sua condição e fazer dela, em vida, um exemplo para quem quer que possa ver. Daí vem a escolha pelo meu avô; meu pai era covarde, batia na minha mãe e cagava de medo quando sentava-se à mesa com os bandidos para jogar ronda e chorava ao levar deles tapa na cara. Não sei se ele recuperaria esse tempo perdido se algum dia se livrasse do jogo, mas sempre me pergunto porque Deus não nos deu essa chance. A morte do meu pai foi traumática para a família, que via nele um líder, por ser mais velho, e terem se acostumado a ele como uma referência, sem com isso ter trabalhado outro irmão para suplantá-lo, caso fosse preciso. A partir daí, me afastei completamente deles, e eles se afastaram da gente, não sei se por negligência familiar ou por não saberem mesmo como agir.

Sempre estudei bastante, enfiei na minha cabeça que deveria fazer apenas isso, e me convencia a cada ano, após a morte do meu pai, a cada corpo sendo arrastado na porta da minha casa. Mamãe nunca deixou me faltar nada, apesar de sofrer de uma leve esquizofrenia e, por vezes, precisar da ajuda dos bandidos para se acalmar. Tomava remédios controlados e brigava por mim diante de qualquer fuzil que viesse à porta da minha casa me aliciar para o crime. Certos bandidos esquecem, em sua própria comunidade, que ser como ele é muito fácil e é uma peça de fácil substituição. Um deles não pensou quando apontou a arma na cara da minha mãe e disse a ela que eu teria que ajudá-lo no tráfico ou ela morreria. Ele sempre teve o cuidado de fazer as ameaças quando eu não estava em casa, mas nesse dia eu cismei de matar aula pela primeira vez e passava aqui por perto no instante em que ela renegou meu destino escrito por aquele bandido, recebendo, ato contínuo, um tapa na cara. Não corri em cima dele nem dela, me escondi na lanchonete, esperando a hora de ele sair dali para voltar para casa. Na mesma semana mamãe me transferiu para uma escola de tempo integral, o transporte me deixava na porta da favela, e aquele bandido me encarava todo dia que eu passava por ele. Tinha que dissimular uma expressão de indiferença para não alertá-lo do perigo de eu tê-lo visto naquele dia. Passamos uns quatro anos nessa rotina, nesse meio tempo pouca coisa aconteceu, à exceção da morte do meu avô, minha mãe ter parado de fumar e beber quase ao mesmo tempo em que eu comecei. Quando o Juninho - o cara que tinha batido na minha mãe - me viu fumando um cigarro, deve ter saltitado de alegria.

Recebi do cara, por intermédio do Fabinho, um amigo de infância - eu era criança ainda, apesar de fumar e beber escondido - que acabou por cair nas teias do tráfico, um convite. Ganharia quantos tênis eu quisesse, quantas bermudas e bonés só para ficar na porta da favela e avisar quando os canas chegassem. Não dei uma resposta definitiva, mas fiquei de passar na casa dele no dia seguinte. Tive uma noite em claro, as imagens dos corpos arrastados e a do meu próprio pai, que não vi e evitava a todo custo formá-la em meus sonhos, pululavam e se fundiam em histórias idênticas, como mesmo princípio e fim. Não entendo porque dediquei aquela noite a pensar nisso, já que tinha muito bem definido um plano para tudo isso.

Pela manhã, bati à porta do escritório do Juninho e ele abriu um sorriso que até me deu medo, como se já soubesse cada palavra do que eu diria a partir daquele momento. Contei toda uma história sobre injustiça social, que estava ali para brigar pelo direito dos moradores e colaborar para que um dia o poder paralelo suplantasse o poder público etc. O fato é que o cara acreditou e me pegou pela mão para conhecer o movimento, toda a hierarquia que tinha que ser respeitada. Um poder muito bem distribuído, com funções definidas para cada cabeça, ações sincronizadas que invariavelmente deveriam ser analisadas e aprovadas pela alta cúpula do tráfico, análise de riscos, me senti numa das empresas que eu vislumbrava trabalhar quando eu lia os meus romances. Na hora não compreendi, mas hoje eu entendo o êxito dessas facções, anos-luz à frente de toda a segurança pública.

Precisei de apenas uma semana para executar meu plano: matar o Juninho. Com o aval do Tunga, seu arqui-rival e sedento pelo poder da favela, consegui um lugar a sós com o então chefão, com a desculpa de discutir alguns pontos frágeis das bocas. Mais uma vez graças aos livros, eu descobri que arsênico era um veneno foda e consegui com um amigo da escola que tinha um pai químico, ou algo do tipo. Durante a conversa, enquanto bebíamos nossa Brahma - até aquele momento, só bebia Cintra quente escondido de mamãe - ele escapou e tendeu o celular, me dando as costas. Foi a hora em que joguei o veneno em seu copo e aguardei ansiosamente pelo próximo gole dele. Quando ele começou a se estrebucha no chão, reagi, com uma pontinha de sorriso no canto da boca e no fundo da alma, surpreso, atônito. Corri à porta gritando por socorro, ao que os baba-ovos de Juninho invadiram o escritório mirando olhares desconfiadíssimos sobre a minha figura acuada, pálida. Fiz-me de desentendido e corri em direção à minha casa, abraçando-me à mamãe e vendo o filme sobre meu pai morto passar com toda a força, com toda a violência que um assassino merece. Chorando horrores, mamãe me deitou sobre seu colo e me fez cafuné até eu dormir. Novamente os pesadelos me perturbaram, dessa vez com mamãe correndo atrás de mim com um pé das suas Havaianas rosa nas mãos, gritando:

- Vem cá, seu filho da puta, vou te matar!
- Não posso, a senhora também morrerá - eu dizia, também gritando.

Ao contrário do que eu imaginava, acordei tranqüilo, não comigo mesmo, mas com o fato de não haver movimentação alguma ao redor da minha casa. Esperava toda a tropa do Juninho espirrando baba por todo o canto, em busca do meu cadáver. Mas soube que Tunga armou um álibi incontestável para mim, jogando a culpa em cima de um de seus traidores, o Joca, cuja ambição, segundo o futuro líder do tráfico na favela, roubou sua insanidade e o fez cometer aquele crime bárbaro. Apesar de estar com um peso até hoje inimaginável na consciência, deu tudo certo, vinguei o que aquele safado do Juninho fizera com mamãe e ganhei a paz na favela, principal motivo da nossa permanência por aqui.

Hoje, somos protegidos por Tunga e temos a total liberdade dentro da comunidade, sem pra isso ter que nos envolvermos com o tráfico. Uma das ruas até ganhou o nome do meu pai, o beco onde moro, e, embora eu tenha passado por tudo isso, ainda me sinto bem aqui. Tento manter viva dentro de mim as boas lembranças, dos meus amigos de infância, das brincadeiras, das merdas que fazíamos juntos, mas aprendi a conviver com a dor, o sofrimento, fazendo-me mais forte e mais tolerante com a vida, o que me diferencia da maioria dos caras da minha idade: transitar entre o bem e o mal com a mesma naturalidade.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
30.9.07
11:50

Essencialidades

Uma conseqüência das mais fascinantes da vida é a possibilidade de histórias que ela nos entrega. Fato transcendental, o homem corre em busca de sentidos para a vida, hipóteses que expliquem tamanha dedicação em prol de algo que sequer se tem conhecimento pleno. Implica em justificar e, sobretudo, compreender as relações essenciais nas quais nossa vida se baseia.

Sou muito criticado quando se trata de expressar sentimentos tão óbvios, que me saltam aos olhos, mas que, para os outros, dependem de uma prova concreta. Concretizar sentimentos, não é preciso divagar tanto para notar aí uma discrepância, mas insistem em justificar paixões, amizades, amores, com demonstrações públicas de afeto, como diz o orkut. Fatos são semelhantes, ocorrem simultaneamente em vários lugares com vários propósitos, de modo que um mesmo fato pode ser usado para justificar tantos sentimentos quanto exigir a situação. É preferível crer em algo não visível, pode ser uma fuga para futuras decepções, acreditar no desconhecido é se encorajar escondendo-se em uma subjetiva inocência. Entretanto, quando se acredita em rosas vermelhas, mensagens românticas etc, só há duas explicações plausíveis: ou realmente se confia ou se esquiva do óbvio. De qualquer maneira, é de se expor ao risco. Diz-se muito do risco de cair de cabeça em uma - talvez vã - promessa, mas os que caem são os puros de alma, os esperançosos, os remanescentes daquele romantismo extinto nos dias de hoje.

Amizades sofrem do mesmo mal. Se você perceber um dia que todos te amam, que todos se dizem seus amigos, desconfie. Ser amigo se tornou, tal qual estar apaixonado, uma banalidade. Conheço tanta gente que se refere a qualquer conhecido como amigo ou amiga, sem diferença para uma amizade de anos ou aquela instantânea, na mesa do bar, que começo a me sentir ofendido quando se referem a mim dessa maneira. Não me vem à cabeça uma situação na qual me utilizei desse artifício para ser bem quisto em algum lugar. Posso até te conhecer, achar você bem legal, gosto de você, mas só te conheço, não sou teu amigo. Sou fã dos ditados populares - os mais chumbregas - por conseguirem sintetizar algo que às vezes é estudado por décadas, discutido entre grupos e grupos de cientistas, resultando em uma dissertação repleta de eufemismos - talvez isso justifique o efemerismo com que se é tratado hoje o assunto.

Amor e amizade só se reconhecem com a correspondência, e só se afirmam com a falta. Não se tem notícia em minha curta vida de alguém que tenha passado um dia maravilhoso com alguém e tenha chegado em casa dizendo "estou apaixonado(a)". Nos rendemos ao amor ou a uma amizade por meio de um desabafo, diante de lágrimas, quando mais precisamos delas. A ausência não convive com a felicidade. O poeta que diz amar quando sofre se equivoca em afirmar que é ali que o amor reside. Notou-se sua presença naquele momento, e quando é inevitável - e sempre é - ser feliz sozinho, o que resta é cair no mundo e procurar a nova tampa da panela, esperando sempre uma reciprocidade. Afinal, fatos são fatos, e o mais incontestável e incômodo é saber que, em algum canto, haverá alguém que irá suplantar, assim que houver oportunidade, com surpreendente naturalidade o que era tratado com tanta complexidade.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
9.9.07
21:00



Fuga n° ∞

Aos poucos, a brasa tomava conta do cigarro abandonado na mão fora do carro, com a ajuda do vento que redesenhava o mosaico de folhas secas na calçada onde tinha parado seu carro. Esperava por ela mais por desejo de lhe participar o texto que elaborara durante a semana do que por vontade de vê-la. Há quanto tempo não sentia vontade de vê-la, nem sabia mais. Pensou nisso enquanto seu olhar se perdia num dos incertos movimentos das folhas, na descida trepidante do carro na contramão, na freguesia moribunda da sorveteria ao lado - apenas duas pessoas entraram lá, uma era a mãe do balconista pedindo um real. Se não tivesse sabido que, a poucos metros de onde se localizava, há poucos dias, um homem fora assassinado com seis tiros no rosto, julgaria ser aquele bairro o ideal para criar sua família.

Aos poucos, o monstro - se conseguirmos fugir do sentido tenebroso que nos dá essa palavra, chegaremos ao real significado dela no assunto - que se formara e que o perseguia sem vontade alguma de abandoná-lo fora tomando forma e sentido. O encontro, casual, despretensioso, intermediado pro amigos, não lhe encheu os olhos. Tinha visto, sim, que era uma boa companhia, inquestionável, mas não o que passou a perceber já no primeiro arrastar de cadeiras, visando uma aproximação. As maquetes feitas com os guardanapos e canudos do lanche digerido há pouco tempo cantava a pedra. Concluíram, sem influência direta de ambos, que era a casa na qual morariam. O primeiro beijo, logo depois, viria com a certeza de que mais um amor de carnaval se iniciava, e com o passar dos dias, com o passar das festividades, não se encerrava. No dia dos namorados não acreditava mais em um desatino do coração nem um pouco carente - e isso lhe causava estranheza. Procurava respostas em seu próprio relacionamento, alguma falha, uma lacuna que lhe permitia a fuga em busca daquilo que lhe faltava. Mas não lhe faltava nada. Pelo contrário, não se lembrava de ter estado tão feliz em seus conturbados namoros. E ao mesmo tempo, quanta confusão, via uma diferença naquela colombina. Sentia que a cada dia se envolviam mais, suas almas se entrelaçavam com mais facilidade a cada encontro, assim como seus corpos se combinavam e se despiam de qualquer pudor. Já não via outra saída senão a de fugir do monstro, correr impulsivamente, sem hesitar em olhar para trás. Até o fez, mas no meio do caminho, não uma só vez, retornou e quis, do fundo do seu coração, recomeçar o caso, ainda que com a certeza de que novamente interromperia e fugiria, fugiria. Do alto de sua prepotência, ou baseado numa certeza explicável por apenas algum sentimento superior ao que lhe creditava naquela situação, imaginava o pranto da menina, a porção de tristeza que jogava no peito dela a cada sumiço. Decidiu, repentinamente, que o melhor a ser feito era aquilo mesmo, esperava apenas sua própria atitude.

O cigarro, enfim, expirara. Jogou a guimba fora e olhou para o corredor que se inclinava íngreme em uma escada cujo fim nunca soube ao certo, mas de onde sempre vira surgir suas coxas roliças - um dia comentou essa peculiaridade com a menina, cuja reação não se lembrava ao certo, estava meio bêbado. E ali, novamente, as esperava com tanta ansiedade. Por que certas coisas vêm em horas tão inoportunas, uma pergunta corriqueira agora se unia ao seu cotidiano, vivenciava tão intensamente essa questão, trabalhava em cima dela à medida que se desdobrava em não deixar transparecer ao outro hemisfério do seu círculo de amizades. Talvez fosse a clandestinidade o tempero de tudo, o medo da revelação deixava mais saboroso cada encontro bem-sucedido. Mas era pouco argumento para tanto rebuliço que lhe perturbava. Buscava mais de si, já que previa - e pouco tempo depois teve certeza - o que lhe esperava do outro lado. Buscava algo que a confortasse, já que se sentia incapaz de dar tanto amor desmedido a mais de uma. Parecia-lhe impossível, ao passo que não pensava em largar de mão algo tão intenso.

Manobrou o carro ao ouvir os passos descerem a escada. Nem reparou nas coxas. Nem quis. Cantou os pneus e apenas um comedido olhar pelo retrovisor pôde mirar o contorno da menina, desolada, no portão, e inventar as nuances que naquele momento deviam passear pelo rosto dela.

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
25.8.07
23:45

Ventriloquismo

Ela examinava minuciosamente cada prédio à margem da pista. Na medida do possível, descobria seus defeitos, pinturas que desgrudavam deles, janelas desalinhadas, até se perder nos piscares insistentes dos carros à sua espera - eles descobriam, após uma certa insistência, que o buzinaço nem tão cedo faria efeito. O trânsito da cidade, principalmente às seis da tarde de uma quinta-feira chuvosa - ou chorosa de Deus, como ela preferia -, permitia esses desfrutes ao carioca. De propósito optou pelo carro, ao invés de mais uma vez em três anos ir de metrô para o trabalho. No meio da desordem dos carros de passeio, coletivos, e até um trator que se enganara e naquela hora era hostilizado pelos demais motoristas, cerrou os vidros e pôs no aparelho um cd de samba que comprara há algum tempo, é verdade, tinha se lembrado disso quando seus dedos tateavam o fundo do porta-luvas e descobriram aquela peça, quase esquecida ali dentro. Abriu um fio de sorriso; afinal, se sentia como aquele cd, esquecida, ainda que aquele tenha tido uma sorte melhor. Sorriu e chorou pela primeira vez no dia, serpenteava uma lágrima pelo seu rosto, alcançando os lábios, de onde foram alcançados pela ponta da língua. Parecia que o único prazer da sua vida naquele momento era salgar a boca com sua própria lágrima, tamanha a satisfação com que fizera aquilo. Piscaram novamente, os outros não a viam, mas do outro lado do vidro ela os via com aqueles olhares enfezados, lia nos lábios de alguns deles uns xingamentos quase sempre relacionados à mulher e direção.

Sentia-se bem ali. Não queria chegar em casa, como todo dia, e ver seus sentimentos ignorados, seu marido e dois filhos quase adultos virem seu choro e concluir que a mãe vivia assim mesmo, era problema dela com ela mesma, que não entendia a esposa e mergulhava na imbecilidade de que toda mulher era daquele jeito e que nós, homens, nunca as entenderíamos. Dava-lhe mais raiva o fato de não conseguir sair de casa diante daquele espetáculo de mesquinhez, por amar mais que tudo seus filhos e saber, no fundo, que eles nunca tiveram culpa e que apenas se acostumaram à sua tristeza. Por tudo isso, mais lhe valia o tédio do trânsito do que a triste rotina que o destino lhe dera.

De tempo em tempo, lia as horas no painel do carro, mais com medo do que com desejo de que o tempo passasse, como é comum a todos. Quem não conhece, não acredita, às vezes nem ela própria acredita que conheguiu suportar vinte e dois anos de um casamento que beirava o medíocre, a ponto de apenas no primeiro desses anos todos dormirem na mesma cama. Os filhos se confundiam com o casal; da mesma forma que passavam por esses períodos agonizantes, que de acordo com o conhecimento adquirido até então sobre relacionamentos não abria precedentes para um final feliz, viam os pais numa felicidade invejável, de mãos dadas pela rua, relembrando as datas marcantes, os fatos inesquecíveis, enfim, toda aquela história de casais felizes - e naquela casa os humores mudavam tão repentinamente que era impossível formular hipóteses sobre a real situação da família - de modo que tendiam a admitirem o melhor, se atinham à esperança de dias ensolarados para evitar as tempestades. E em meio aquela tempestade na qual ela era a única que aceitava ter vivido todos esses anos, o tempo tinha passado tão rápido, como passava naquele relógio no painel do carro. Quando viu, tinha saído da Avenida Brasil para a Dutra e dali para casa.

Saiu do carro para abrir o portão e nem fez questão de agilizar o procedimento para se molhar menos. Mais uma vez as lágrimas desceram e dessa vez sua língua não encontrou o salgado que se perdera nas águas celestiais. Seu choro tinha se misturado com o de Deus. Há tempos não encontrava uma paz tão confortante ao chegar em casa. De súbito, sentiu-se renovada, e não se dava ao trabalho de encontrar responsáveis. Passou pela cabeça a música, mas encontraria ali um refúgio tão acessível que se tornaria um vício e, como todos os outros, não lhe faria melhor, quando se desprendesse dele sabia que encontraria um mundo bem diferente do que conhecia, bem mais revirado. De fato, somente aproveitou o que sentia e entrou em casa.

Esquecera do próprio aniversário.

A animação do marido e dos filhos, diante do bolo meio deformado de chocolate com cobertura de chocolate e granulado de chocolate, perturbou-lhe a cabeça. Pensou em dar as costas e voltar para a rua, em protesto à cara-de-pau do marido em tentar camuflar a situação com uma festinha. Esboçou um sorriso como quem agradece sem querer, um reflexo do humano que tenta cultivar dentro de si. Chorou pela terceira vez e se entregou aos braços dos homens da sua vida e à ilusão cotidiana na qual devemos nos entregar em troca da harmonia familiar.

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