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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
6.2.08 23:55
Algodão nos olhos
A manhã do último dia em que Dona Nancy e seu Aílton acordariam juntos indicava o andar atípico das horas que por ali passariam das de todos os outros dias. Uma neblina baixou em Arcinto e, de tão densa, não se conteve pelas ruas e ocupava as casas se arrastando pelas frestas das portas, pelo abrir inocente e repentino das janelas. Paulo, um dos três filhos do casal, recém-viúvo, lembrou-se de imediato dos cegos de Saramago em seu ensaio e esboçou um desespero, logo desfeito ao ver Tony, o cão da família, de raça desconhecida, lançar seu vulto negro por entre a fumaça. Tinha adquirido uma inquietude por aqueles dias que o fazia, via de regra, ser o primeiro a se levantar da cama, inquietude essa, cá pra nós, de todos os modos compreensível, pois não é qualquer um que permanece irretocável dentro de seu juízo quando descobre que a esposa, ao contrário do que declarara à tarde, assim como em todas as outras quartas, amor, vou à igreja, ela se encontrava com o amante, diretor da empresa na qual trabalhava, no motel mais chinfrim da Avenida Brasil e bebia horrores, mas, naquele dia fatídico, encheu demais a cara e aprontou com o amante, como se já não bastasse aprontar com o marido, e o arranhou por completo, não pelo êxtase em horas devidamente conhecidas por nós, mas diante de uma recusa do jovem senhor em lhe presentear com um sapato bárbaro que tinha visto semana passada lá no shopping, e daí, um tiro de pistola no meio dos cornos - não reparem no trocadilho infame - não era de todo surpreendente. Mas deixemos de lado as peculiaridades da vida alheia pois, apesar de sermos insconscientemente atraídos por esse tipo de notícia, não é essa história que pretendo contar. O fato é que a neblina perturbou os moradores, que, acostumados a saudarem um ao outro por suas janelas, viram um muro branco com alguns pontos de cores primárias bem esvanecidas. Comentou-se sobre a chegada de uma tempestde, fato prontamente negado por alguém que tinha visto cedo - mais cedo do que o horário do despertar do povo, se é que isso é possível - a previsão do tempo, que prometia sol escaldante até, óbvio, à chegada da noite. Cogitações acerca do clima daquele dia à tarde, aquele capricho da Natureza não era lá um presságio tão forte para a excentricidade do que viria a acontecer. Alguns se aventuraram pelas ruas e, aos esbarrões, reconheciam a gente e, pela voz, escolhiam a forma de tratamento: senhor, senhora, menina, viado etc. Quando a coragem contagiou a maioria do povo, no momento em que se formava a caravana dominical em direção à igreja, a mesma da já citada Ana Paula, que prometo aqui não mais incluí-la na história, nesse momento uma ventania tomou de assalto as ruas, levantou as saias das pudoradas, arrancou as folhas secas das amendoeiras, deu coragem às roupas para alçarem seus vôos sobre o bairro e levou consigo a neblina como um pincel a revelar, em meio à poeira, as já conhecidas figuras cotidianas e deixou aquele cheiro de chuva que dispensa pormenores. Ato contínuo, seu Aílton, lá da sua janela, bradava: - Porra, Marquin, tu não disse que não teria chuva hoje? - Parceiro, só disse o que tevê falou. Alheio às alternâncias do tempo, o fluxo seguiu serenamente para a capela onde se realizaria dali a pouco a segunda missa do dia, já que a primeira, às seis, fora prestigiada apenas pelo padre e seus três acompanhantes, ou asseclas, ou companheiros, o que soar menos pejorativo. Entreouvia-se, no caminho, buchichos sobre o escândalo daquela supracitada que se encontra proibida de figurar por essas linhas, a simpática e inesperada neblina, o tema da missa do dia, dentre outros assuntos não menos importantes. Já fazia alguns anos que Seu Aílton não ia à igreja, segundo ele, por motivos particulares, que se tornaram os mais variados na boca dos mais criativos, porém, tinha acordado decidido a ir, e o evento matutino só fez reforçar a sua convicção. Dona Nancy, a única que realmente sabia o porquê de o marido não mais ter freqüentado as missas, viu com não bons olhos a iniciativa do marido, inquietando-se assim que soube pelo marido. - Ué, por quê? - Sei lá, gente, decidi - disse o jovem senhor. Acordei com vontade, poderia ser de comer, de beber, de cagar, mas foi de ir à igreja. - Espere-me, pai, eu também vou - foi quando a mãe estatelou os olhos e decidiu não impedir. À porta, a matriarca coçava a nuca, franzia a testa, mordia o canto da boca, balançava a perna e olhava para o marido como se conseguisse desvendar algo em seu pensamento, capturar algum movimento que denunciasse alguma suspeita, qualquer coisa que a fizesse seguir uma linha de raciocínio, escassas nas evasivas de seu Aílton durante a manhã. Como se sentisse a mulher no seu encalço, o patriarca se virou para a porta de casa ao mesmo tempo que a mulher bateu a porta. Deu dois passos e a porta abriu-se violentamente atrás dela. - Mamãe - era Pedro, o filho do meio. Dona Nancy, coitada, perdeu a fala. Esforçava-se para dizer um meu amor, que bom que você voltou, mas parecia que a voz se amedrontara ao ouvir aquela voz que não ouvia há anos. - Mamãe, me ajuda. Acabei com a minha vida. Tinha tanto a falar, mas as palavras refugavam em sua garganta, cada vez mais congestionada. Não havia outro remédio a não ser ouvir o que o outro filho aprontara. Durante o discurso, abandonou a poltrona e acendeu um cigarro que seu Aílton tinha esquecido ao lado da televisão, cujo noticiário dava conta de um crime passional. Não tinha ouvido uma palavra de Pedro, mas se suas cordas vocais tivessem cessaso a greve naquele momento responderia precisamente a tudo que lhe fosse perguntado, sem tirar os olhos da tela. Com os detalhes, o que Pedro relatara parecia ter saído do mesmo roteirista que guiou seu outro filho Paulo, até o nome daquela moça, aquela mesma história, a mesma desculpa, a mesma safadeza. E dona Nancy continuava sem dar um pio, ao passo que o filho falava feito uma matraca, teria mandado calar-lhe a boca se tivesse a voz, que me perdoem a constante lembrança de tal desgraça que lhe foi conferida, mas este é um pormenor do qual não podemos abrir mão, para o bom andamento da história. Sem mais, deu-lhe um tapa na cara e disparou até a porta que dava para a rua. Novamente a neblina tomava conta das ruas de Arcinto e, agora, a chuva derramava a desgraça em cima da cidade, pobre dela, vítima naquele dia de tantos acontecimentos insólitos. Mas como a cidade pouco se importa com isso, permanece soberana, a acompanhar o destino de cada cidadão que faz dela uma cidade orgulhosa por ter tantos e tão apaixonados moradores. E, por ser assim, dona Nancy conhecia o caminho da igreja e uma neblinazinha boba não a faria errar o caminho de Deus. Seria demais pedir que ela soubesse exatamente onde os degraus brotavam do chão, e foi assim que ela tropeçou e foi parar aos pés do padre. - Arrependei-te, irmã, por ter abdicado... - Peraê, padre. Onde está meu marido? - Sei lá. Saiu na metade da missa. Volta dona Nancy para casa, já sem a neblina, mas toda encharcada da chuva que parecia ter se esquecido da ausência da outra e continuava chovendo. Abriu a porta daquela que julgava ser sua casa e encontrou um casal de jovens, dezesseis anos, no máximo, transando apoiados sobre a mesa: ela, com a saia levantada e ele nos trabalhos, com a bermuda pelos joelhos. Se dois porcos tivessem copulando no lugar dos jovens não faria a menor diferença, porque a jovem senhora atentava-se à mobília da casa e, realmente, não condizia com os imponentes armários que se erguiam dos pisos como intermináveis sentinelas. Bateu a porta e viu a neblina de volta, sem a chuva. Achou graça na intermitência de Deus e resolveu encarar a cegueira em busca da casa, e ainda hoje anda pelas ruas, à espera do momento em que encontrará sua outra filha, a terceira que falta na história, para contar-lhe que morreu porque o marido tinha descoberto seu amor secreto em meio às mentiras que inescrupulosamente vomitava em cima dele. *
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