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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
24.1.08 23:50
Boa Sorte [tomo 2]
Antes de tudo, devo pensar em mim também. Sou muito complicada, me entendo - ou não. Sou casada com um homem que nunca amei, mas mesmo assim tive dois filhos. Ironicamente, o único homem que me amou de verdade. Às vezes, quando me deito, finjo dormir e espero ele pegar no sono para observá-lo. Não sinto pena dele, seria muito cruel se pensasse assim. Todos os casos que tive fora do casamento rolaram com uma motivação além da minha frustração na vida a dois. Seja paixão, curiosidade ou algo que o valha. Vejo as imbecis que andam comigo e saem com outros garotos. Especialmente uma. Não entendo como elas têm a cara-de-pau de, logo após terem dado para outro cara, dizer eu te amo para os namorados. Eu faço o que faço porque realmente não amo o meu esposo; caso contrário, seria fiel mesmo que o Zé, aquele do meu trabalho com quem eu dava umazinha de vez em sempre - por esse eu me apaixonei. Tinha um jeito de falar comigo, era como se quebrasse as minhas pernas. Por um bom tempo comeu na minha mão, eu chamava e a gente ia ao motel. Foi um caso mal resolvido, garanto que se fosse em outra época, ele estaria no lugar do meu marido. Hoje de manhã, antes de sair, enquanto fumava, vi meu pai deitado onde o meu marido se deitava quando ele não queria transar comigo e eu o expulsava da cama. Apesar de tudo, sinto falta dele. Meu pai ali, no lugar dele, me fez refletir sobre a ausência e, principalmente, a reposição de certas pessoas cuja importância em nossas vidas parece ser eternamente inviolável. Poderia estar ali, deitado junto a ele, minha mãe. Mas esse é outro assunto. Preferi pensar em como vou proceder para convencer meu marido a voltar para casa. Tentei me livrar dele, mas não consigo. Será um carma na minha vida. Tentei refazer minha vida com outro, dentro desses meses em que ele esteve fora. Era até legal, se dava bem com meus amigos - não com os do trabalho, nunca o levei até lá -, mas vacilava muito. Não queria algo sério, erguer uma vida, sustentar uma família, assumir responsabilidades de homem, enfim. No almoço, fiz o máximo para chamar meus amigos para perto de mim. Temporariamente, desisti dela. Vou provar a ela que estou certa e eles vão se foder sozinhos. Estava na mesa, junto à sua mais nova amiga, aquela vaca, outra que deu pro cara do meu trabalho, compromissado com uma moça tão linda, acho uma puta sacanagem isso. Quando eu dei para ele, foi com outras nuances. Era simplesmente curtição, algo que devíamos acertar entre nós, certos jogos de olhares e palavras que precisavam ser desvendados. A princípio pensei que ele realmente havia se interessado em mim, mas percebi que ele é apenas um amigo do qual me orgulho em ter, babo ovo dele mesmo, fodam-se todos. Mas as duas ficaram lá na ponta da mesa, enquanto meus amigos e eu conversávamos sobre os mais variados assuntos. Quando as duas se levantaram para mijar e fofocar no banheiro, veio-me uma conversa que tive com o meu amigo cujo ovo eu babo - às vezes literalmente. - Ah, num fode - eu disse - Tu brocha com qualquer mulher, teu pau é murcho! - Pior é quando o cara pega uma vagabunda qualquer e tem vergonha de contar até para os amigos de trabalho. Poucas pessoas sabem dessa foda que nós tivemos. Ele brochou, nunca um homem tinha brochado antes comigo, imagino com quantas outras o pau dele não subiu. Saí com todos os homens daquele escritório, nenhum deles negou fogo. Não admito que ele me esculache. Saí do trabalho e fui na casa da minha sogra - ela me odeia. Pedi para conversar com meu esposo e, depois de muita conversa, voltamos de ônibus para casa. Fez a mochila em pouco tempo, pegou um punhado de roupas e, feliz da vida, foi me beijando de dez em dez metros. Senti um alívio no peito, pensando na minha faculdade, meu trabalho e nos meus filhos. Mais um salário dentro do lar me traz mais conforto. Não me incomodo com o que os outros cochicham ao me ver passar de mãos dadas com ele. A maioria não sabe o que é ser casado, engolir sapos. Pelo menos em uma coisa eu concordo com aquela imbecil: um relacionamento pode sobreviver sem amor. Basta saber conviver e, de vez em quando, emergir numa realidade virtual, mentirosa, burra. É assim que vou vivendo, e muito bem, obrigada. *
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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
21.1.08 23:31
Intermitente
Não se entendia. Orgulhava-se disso. Esforçava-se em ser obscuro no que dizia e fazia. Pensava nisso - seus devaneios delataram sua arrogância para si - enquanto via Vanessa caminhar pela ladeira onde morava, calçada por pedras vindas sabe-se lá de onde. Era assim com ela. Um súbito medo - ou qualquer sentimento que faça alguém se retrair tanto quanto o medo - se apossava dele à medida que formulava um discurso sobre o que pretendia do futuro ao lado dela. Dali, do alto da janela, via a moça caminhar com dificuldade sobre as pedras. Um pouco atrás, descia uma morena escultural, barriga lisa, seios tãoo duros quanto ele desejava todas as noites antes de dormir, uma bunda que lhe excitava mesmo envolta pelo jeans discreto. Alternava os olhares entre as duas para acreditar no seu coração. Lá de baixo, Vanessa fingia não vê-lo e perceber a morena mais parecida com aquelas do carnaval. Sabia que ele comparava os corpos, e até chegou a esboçar um sorriso. Confiante, teve a certeza de que lhe tinha escolhido não pela efemeridade da beleza que acompanhava a outra, mas por um pequeno capricho da vida que um dia fez com que, como nas histórias mais chumbregas de amor que costumava ler recostada na rede do seu quintal, dois corações cansados e ressabiados pelas promessas de amor tivessem tempo de se conhecer e entender. Propositalmente, mudou seu rumo para a livraria em frente ao sobrado onde se localizava seu observador. Sem pestanejar, o rapaz correu para a loja, cheio de autores em mente. Apesar de terem passado vários meses - seis, talvez - sem se ver, ele tinha certeza de que se reencontraria dentro de uma livraria. Às voltas com as letras de Bukowski, Ubaldo, Cortázar e tantos outros com os quais costumava dormir, só tinha olhos para localizar Vanessa, que insistia em se esconder debaixo dos auto-ajuda, seção onde tinha certeza de que ele nunca visitaria. Dali, Vanessa observava um homem amargurado, curtido pelo sofrimento e abandono de sua própria alma; um refugo do homem que tanto amou e que, ali, não passava de um corpo entregue à sorte do mundo. Tentou odiá-lo, sem sucesso. Tentou amá-lo, não podia mais. Foi descoberta enquanto penava sobre o olhar melancólico em um rosto com sinais de erosão. Acuada, ergueu-se e então se olharam, talvez como nunca em tanto tempo. Cada passo aproximava mais seus corpos, certa vez comprometidos a se fundirem. Cada avanço encorajava e desalinhava os olhares, chegando a ser simplesmente dois olhares em tantos outros ao se cruzarem, em frente à prateleira de Maiakovski. Ela, já na calçada, pronta a retomar seu caminho ladeira abaixo, resistiu até a primeira lágrima escorrida. Era uma lágrima feliz, o alívio escorrendo pelo seu rosto, a certeza de que não amar também é humano, sem culpa; talvez o mesmo no rosto do rapaz ao compreender que nunca mais, em sua vida, a teria de volta. Talvez o mesmo a escorrer em seus lábios, antes de saltar da janela e concluir que não mais precisaria da vida, dando lugar a outros amores e sofrimentos. *
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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
1.1.08 22:18
Vermelho
Céu colorido, sonoro, festivo. Ano novo, vida nova, roupa nova e homem novo - pelo menos pra Ritinha. Em meio à embriaguez e ao vômito ebulindo na garganta, ela só pensava nisso-naquilo. Noite quente, troncos desnudos e a fantasia da primeira pica que lhe daria a primeira alegria do ano - só pensava nisso-naquilo. Silhueta realçada pelo úmido da sidra Cereser, eriçava comedidamente os faróis à espera de um alvo para apontar-lhe a intimação. E quem um dia ousou baixar a cabeça para tal afronta viu a própria reputação ruir - de brocha para baixo. Rubinho conhecia esse papo e tratou de se manter afastado - se dona Patroa sabe, não ia prestar. Mas Ritinha não presta se o assunto não for putaria e tratou de sombrear o coitado. Até que se encontraram num ponto-cego da casa. - Hahahahahahahaha! - a sorte é que era festa, e disso se ri também. Limpando o canto da boca - não pelo pudim -, Ritinha reaparece, toda sorrindo. O curió do pai só fazia barulho, valioso que era. Rubinho, prudente, se agarrou à dona Patroa e sabe-se lá quantos orixás ouviram dele que não mais acontecesse o que aconteceu. E ela lá, no canto da sala, serelepe. Cruzava as pernas, calcinha vermelha. - Quero mais - esgarçou a boca o quanto pôde para que ele entendesse de tão longe. Ele riu, fazer o quê? Nem tudo é novo no Ano Novo. *
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