Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
9.12.07
20:24

Boa sorte

Resolvi sair de casa disposta a me aborrecer. Acordei cedo, tão facilmente como sempre desejei nos dias de trabalho, tomei um banho demorado - sentia algo se fundindo a minha pele, meus poros sendo ocupados por qualquer sentimento estranho. Fiz algo que nunca tinha feito até então: me olhei no espelho por muito tempo, nua. Afastei-me, vi meu corpo deformado e pela primeira vez sorri para ele. Percebi que a minha barriga flácida faz meio que um smiley sorridente, daqueles do msn, acho que vi graça nisso.

Não gosto de casais sorridentes. Aquela melação abstrata, jurinhas de amor sem qualquer embasamento, não me agüento e, se não saio de perto, começo a falar merda. Ele diz que eu sou pérfida, dissimulada, nojenta, que não acredita em uma palavra do que eu digo. Mas o que acontece é que eu sou de lua, falo pra depois pensar. Isso vem de mim, não faço por mal. E, de mais a mais, quase tudo que eu falo é verdade, mas como são eles que estão sendo atingidos, vêem um fio de maldade no que eu falo. Eu estava meio cansada daquela palhaçada toda, de fazer parte disso e não ter forças para intervir. Sempre me julguei uma mulher forte, impulsiva, uma locomotiva que nem à base de porrada me seguravam, por que eu ainda não havia tentado me meter entre eles? É fato que somente a minha presença já o incomodava, poderia ficar quieta por horas, entre os dois, que ele, em alguns minutos, demonstraria impaciência, acenderia cigarros um atrás do outro e faria aqueles trejeitos que tanto me incomodava também, assopraria a fumaça com a boca meio torta para o alto, vendo-a serpentear pelo ar, pendendo a cabeça um pouco para a esquerda. Faço de tudo pra que ele não me veja reparando nele, geralmente eu consigo.

Eles dizem que se amam, eu duvido. Ela gosta demais dele, mas é uma criança, cago para o que ela me diz a respeito dele. Ela é um menina nova, tem tanta coisa pra aprender, não concordo que se prenda a ele - ainda mais ele -, tem que viver a vida para conhecê-la e saber que não vale a pena abdicar de tudo que há por aí, construído e divulgado para quem da sua geração quiser aproveitar. Tento explicá-la isso diariamente, no trabalho onde passamos junts todo o dia, mas ela está cega e surda de amor. Não vale a pena dedicar-se por inteiro a um amor, porque ele sempre acaba e sempre ficamos na merda, olhamos para trás e vemos o tempo perdido. Eu sou mais experiente que ela, tenho filhos, quero que ela me entenda, não cometa os mesmos erros que eu.

De vez em quando me seguro de vontade de jogar meu copo de cerveja na cara dele. Ver o vidro cortando sua pele, o líquido escoando o sangue, a gênese das feridas. É um sonho que tenho na minha vida. Sei que ele não vai deixar barato, não que ele vá tomar a mesma atitude que eu, mas - com certeza será assim -, depois de ter sido amparado por ela e meus amigos que simpatizam com ele, pedirá licença e virá com aquela cara de ódio, retalhada e vermelha, os olhos semicerrados, estalando os nós dos dedos. Sentaria-se de frente para mim e diria, com todas as palavras e letras, sem tirar nem pôr, com um sorriso sarcástico, algo que eu nem imagino, mas somente o sorriso me deixará desconcertada.

Sinto que estou chegando perto de livrá-la deste mal que é esse rapaz. E hoje resolvi finalizar esse meu plano infalível e maldito, como ele diria. Mesmo que para isso eu tenha que me valer de algum fato que ainda não tenha ocorrido.

continua...

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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
3.12.07
23:37

A história do menino que não podia sonhar

Pedrinho se revirava todas as noites na cama. Brigava com o sono, expulsava aos berros e choros aquele anjo faceiro que insistia em se penduras nas suas pálpebras. Fora proibido pelo pais de sonhar, desde o dia em que tinha se deixado levar pela roda gigante cravejada nas nuvens. Por obra divina, flutuou por alguns instantes e caiu de cara no chão, diante dos olhos perplexos dos pais.

Um dia, ousou repetir seu pecado e saiu pela janela afora, no último andar bem perto do céu. Confundiu-se nos planos intermitentes do imaginário e deixou a herança da insônia para os pais e a vizinhança, incrédula, apontava com suas cabecinhas para fora dos cômodos e viram o menino se confundir com a poeira e as folhas secas, em direção a um céu de onde, julgava ele, nunca deveria ter caído. Rodou no carrosel dos anjos, feliz da vida, rodopiou por entre os arcanjos, furou as nuvens de algodão e foi entregue de volta, pela leveza do aroma das rosas, para a roda-gigante.

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