Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
20.11.07
22:58

Caçada

Nesse jogo de
Gato e rato
Eu dou o Tom

Consegui postar graças a ele * Comentários:


Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
18.11.07
11:56

Beijim beijim, tchau tchau

Que a vida de cada um pode mudar assim num estalo, de um dia para o outro, ele já sabia. Mas acreditava fazer tudo tão bem feito, tão sincronizado, julgava ser um ótimo administrador, que nem lhe passava pela cabeça viver algo do tipo. Via vidas desmoronando ao seu redor, e nessas horas servia de conselheiro, no intuito de fazer tudo voltar à ordem natural, pois era o exemplo vivo de que era possível.

A última que aprontou fê-lo surpreender-se consigo próprio, não tanto pela sua postura, mas pelo que acabou se transformando. Ela, apaixonada. Ele, também. Mas, pensava, como poderia estar apaixonado? Não sabia como, mas estava. Afinal, não era outra coisa senão isso o fato de lembrar-se dela a cada decalque de anjinhos e capetinhas, a restrição que se fez em pedir beijinhos a quem quer que fosse, sair na calada da noite com seu carro - nem habilitado era - em busca dela, na casa dela, e tirá-la de casa, com o cabelo todo cacheado que ela odiava e ele amava, apenas para conversar. É bem verdade que, quase sempre, a conversa enveredava por outros caminhos mais tórridos, mas, garantem os dois, em nenhum momento saíram de casa com esse objetivo.

Teve uma época que sumiu. Lembra-se até da última vez em que esteve na casa dela. A família lá em cima, eles se escondendo, e aparece um primo dela.

- Dadá, vem jogar!

Não se sabe como, simpatizaram com ele. Minutos depois estavam lá em cima, ele sendo dizimado no tabuleiro de War.

- Estamos nos conhecendo - dizia ao irmão dela, os dois com a cara mais lavada do mundo. Lavada com água benta.

Sob a mesa, os dedos se enroscavam, trocavam olhares de diamante, se amavam, fato. "Eu sou louco", pensava ele. "Ele é louco", pensava ela. Definiram, em silêncio, desde o começo, não comentarem sobre os outros, mais especificamente sobre ele e o que ele tinha lá fora. Queriam ser um do outro, apenas isso, e por muito tempo conseguiram criar esse universo de paixão, tão intenso que os arrebatava e os deixava abismados, sem ter vontade alguma de explicar o que ocorria, foda-se, eles eram felizes.

Até que houve o hiato. Uma vida toda passou durante aqueles meses, sem, no entanto, isolarem-se. Amigos faziam a ponte de sobrevivência entre os dois, informavam cada passo, cada fato novo, cada pensamento, sentimento. Deram-se tempo para mitificarem-se, justificando o "eu tive um grande amor". Mas o fato é que um grande amor mantém-se até Deus sabe quando, ao contrário do que pensavam.

Ele soube do aniversário dela um dia depois. Nada de presente, eu vou é lá, pensou. E foi.

Reparou uma certa demora entre chamá-la no portão e a sua aparição na escada. Incrível, era vê-la e entrava em transe, uma corrente fria percorria seu corpo, seus olhos brilhavam de imediato, entregava-se à paixão.

- Meus parabéns atrasados!

Esperava um abraço efusivo. Não veio, apenas encostou aquele corpo baixinho em seu tronco e deu-lhe um beijo na testa, ao que ela sorriu no canto da boca e imediatamente ficou de lado para ele. Não pretendia mudar a postura dela, percebeu a que ela descera, deixaria-na livre para falar e fazer o que quisesse. Mas reconheceram-se, os corações se entreolharam, energizaram-se - talvez a paixão seja isso, uma troca de energias, daí pode-se explicar aquela tremedeira, o sangue gelado, enfim - e lá estavam, novamente abraçados, de vez em quando calados, como se quisessem apenas sentir a presença um do outro. Ela, que estava quase expulsando-o do seu coração, viu-se entregue a ele como se nunca tivesse querido outra coisa na vida. Xingava-se, no outro dia se molestou, com ódio do coração, mas sabendo que deveria resignar-se ao que era mais forte que seus braços, pernas, boca, olhos e tudo que julgasse ser de seu controle. Parecia que o destino reservara-lhe aquele peito vira-lata.

O que mais abalou o rapaz é que, um dia antes, tinha ligado para ela. Na primeira chamada, diz ela, estava tomando banho, tocou e não atendeu. Sinal de que não deveria mais falar com ela? Não, isso acontecia volta e meia, e a cumplicidade fazia com que um ligasse de volta pro outro, tal como aconteceu. Conversaram pelo celular por 17 minutos e 15 segundos, de modo que no final da ligação não sabia se tinha ligado ou recebido a chamada. Seja como for, há muito tempo não falava tanto tempo com alguém pelo telefone, se a memória não lhe enganou, a última vez tinha sido com ela própria, não sabia quando.

No dia seguinte, ao chegar em casa do trabalho, depara-se com um envelope passado pelo vão inferior da porta. Com desconfiança óbvia, abaixou-se e pegou o envelope, com aquele cheiro de tutti-fruti que sentia... Era uma carta com a letra dela, e pelas poucas linhas que quis ler, respondia a uma amiga que aceitou o pedido de namoro de algum rapaz. Pensou no ex dela, que até pouco tempo ela abominava, e sentiu um fio de ódio passar pelo coração. Via, talvez, a paixão mais arrebatadora da sua vida esvair-se pelos dedos da sua própria incompetência. Maldito destino que reservara Dadá para aquele Capetinha num momento tão inoportuno! Pensou em escrever cartas, ir até à casa dela, fazer o diabo a quatro, mas resolveu apenas esperar. Entender.

Consegui postar graças a ele * Comentários:


Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
6.11.07
00:15

Decisão

Há muito tempo a vida de Paloma deixara de ser uma novidade. O ciclo tão breve que sua vida cismava em repetir ao longo dos dias causava nela uma confusão de sensações que nem ela própria entendia, o que queria era fugir dali a qualquer custo, de qualquer forma. Olhar para o marido no sofá, confundindo-se com o tecido maltrapilho do que um dia foi um sofá caríssimo, cujo pagamento fora efetuado há dois ou três meses, sabe-se lá, que se foda o tempo, ele só fazia torturá-la.

Buscando no passado uma luz para o futuro é o caminho mais freqüente dos desesperados, e a partir daí, aceitando essa condição, entregou-se às últimas instâncias, nos caminhos mais improváveis da felicidade, aventurando-se em amores efêmeros, à sombra da suposta lentidão do marido, que julgava por ela ser dominado e, sendo assim, quando conseguisse romper a barreira da ignorância dele, teimosia em permanecer na vidadois tão perdida quanto o tempo em que ela se tinha perdido algum dia, teria as rédeas da situação. Talvez se soubesse que a obsessão se mostra com toda a força nos momentos de humilhação, pensaria tantas vezes fosse preciso até desistir do que fez.

Antes, vivia com a presença incômoda do marido que rejeitava a todo custo ao passo que, por convenção até certo ponto aceitável por vivermos em comunidade e não ser de interesse de todos que estão ali por simples falta de opção, persistia em beijos e abraços evasivos. Agora, seu espírito assombra os arredores da casa, turva a visão ao observar o sono dos filhos, deixa em falso o chão que pisa com o que aceitou ser a mais segura e talvez próspera das dezenas de aventuras que encarara ao longo dessa ilusão. Agora é o passo seco que desperta a já pesada consciência, é o nome ecoado quase sempre com inocência, sem referência ao próprio, que faz eriçar cada pêlo do corpo, é a ausência tão incômoda que chega a lhe acompanhar e a pega pelo pescoço, sufocando-a.

É a presença dele, sentado na beira da cama, com um óbvio volume à altura da cintura. É a escuridão formando mosaicos com a claridade, é a vertigem antes da hora. É o flagrante justificando cada ato calculado previamente naquela mente doentia, falsificada pela gana de um amor recíproco.

É o último aperto de mão, o último suspiro entre os dois. O olhar indeciso. O som abafado do estalo, o vermelho escorrendo pelas alvas faces das crianças.

É tudo que se passa e nada do que poderia ser feito, é o uivo do fim.



Consegui postar graças a ele * Comentários: