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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
27.10.07 18:55
Encontro
Os dois se olharam, cada um de sua calçada. Por mais vezes que se encontrem, até à morte, será sempre o mesmo primeiro e brilhante olhar, como se fosse o último e derradeiro. *
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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
23.10.07 00:26
Humanismo
Não é sempre que sinto vontade de escrever. Li em alguns livros que a escrita pode ser uma forma de canalizar algo que te faça sentir mal, e é geralmente nesse tipo de situação que eu tento me dedicar à escrita. Se eu levar em conta a atmosfera pesada na qual eu vivo, deveria ter uma produção literária acima da média mundial. Escrever é uma das muitas coisas que me salvaram do caminho mais curto para a morte - a bandidagem. À medida que eu invento - ou transponho para o papel - histórias sobre bandidos, sinto que me afasto mais desse mundo, ainda que não fisicamente. Com esse afastamento, passo a me importar menos com as rajadas de metralhadora noites adentro, com mais um amigo de infância morto pelo crime ou com outra invasão da polícia, cuja conseqüência é mais um dia dentro de casa, sem ir à escola. Na verdade, eles não são mortos pelo crime, o que ocorre é um fim inevitável de mais um fruto da omissão da sociedade na formação de seres humanos capacitados e, conseqüentemente, da omissão do Estado. Um governo só evolui quando o povo se incomoda, e a mobilização do povo só se dá quando há um show-manifestação, onde se gasta mais do que o suficiente para uma real ajuda para determinada causa. Pena que a maioria dos que moram aqui não sabem disso, se alguém perguntasse a eles porque moram aqui, diriam que não têm pra onde ir, e não estão nem um pouco interessados em ir à rua fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Minha família esteve perto de romper este regime de semi-castas da cidade grande, saltado da favela para a classe média suburbana, não fosse o jogo e meu pai a ser corrompido por ele. Lembro-me como se tivesse sido ontem, e sempre que olho para a porta de entrada, do dia em que o Marconi entrou aqui e levou televisão, aparelho de som 3 em 1, videocassete e um dos dois sofás retalhados que nós tínhamos. Lembrando que estávamos sem luz - a Light cortara uma semana antes -, pode-se imaginar a agonia que passamos, a decepção que mamãe teve e a tristeza que me acompanhou por noites a fio, me lembro que só fiquei triste, não tinha bagagem para definir um sentimento que criticasse a atitude do meu pai. Ao cabo de uma semana ele faleceu, quando tentou pagar a dívida entrando no crime de fato. Foi assassinado por policiais dentro de um banco. Do pouco que me lembro dele, não é bem trabalhada em mim a idéia do meu pai ter sido assaltante um dia, mas mamãe jura de pés juntos - sempre que rompo a barreira do remorso e faço ela falar - que foi assim. O remorso eu explico, talvez até vocês entendam no decorrer do texto, sem a necessidade de eu me explicar. Mamãe casou com meu pai sabendo como ele era. Casou grávida, pensou que seria melhor viver com ele do que com meu avô, um pernambucano baixinho de voz rouca e altiva. Abortou meu irmão, quase dois anos depois de eu ter nascido, para não sofrer mais do que já sofria. Teve tanta dificuldade em me pôr na linha que na época achou prudente não ter outro, para não perder as rédeas e, ao invés de um, pôr dois bandidos na rua. Meu pai esperava que mamãe o amasse, ocupasse o espaço que o jogo se apossara ainda jovem, mas nunca sentiu isso dela, que sabia o tempo todo dessa espera. Tentou de várias formas, quase sempre pensando em mim, mas nunca conseguiu de fato convencê-lo a sair do jogo. Por conta disso, minha vida até os quatro anos é meio sombria, não me lembro de tanta coisa assim. Uma ou duas festas de aniversário, meu desmaio no banheiro, onde eu levei quatro pontos na testa depois de uma hemorragia intensa, algumas brigas entre meus pais, a dentadura da minha primeira babá em cima da pia do banheiro logo pela manhã, essa última é a mais clara lembrança desses quatro anos, com certeza. Minha mãe disse que um dia essa babá me ameaçou com aquela mesma dentadura. Não me lembro. Meu pai morreu quando eu tinha sete anos, três meses depois que mamãe voltou para ele, após outros seis de separação. Nesse tempo eu morei com a minha avó e conheci mais de perto meu avô, que passei a admirar fervorosamente anos após a sua morte, quando eu percebi que a nobreza de um homem não se mede nem se apaga pelos erros, mas por nunca renegar sua condição e fazer dela, em vida, um exemplo para quem quer que possa ver. Daí vem a escolha pelo meu avô; meu pai era covarde, batia na minha mãe e cagava de medo quando sentava-se à mesa com os bandidos para jogar ronda e chorava ao levar deles tapa na cara. Não sei se ele recuperaria esse tempo perdido se algum dia se livrasse do jogo, mas sempre me pergunto porque Deus não nos deu essa chance. A morte do meu pai foi traumática para a família, que via nele um líder, por ser mais velho, e terem se acostumado a ele como uma referência, sem com isso ter trabalhado outro irmão para suplantá-lo, caso fosse preciso. A partir daí, me afastei completamente deles, e eles se afastaram da gente, não sei se por negligência familiar ou por não saberem mesmo como agir. Sempre estudei bastante, enfiei na minha cabeça que deveria fazer apenas isso, e me convencia a cada ano, após a morte do meu pai, a cada corpo sendo arrastado na porta da minha casa. Mamãe nunca deixou me faltar nada, apesar de sofrer de uma leve esquizofrenia e, por vezes, precisar da ajuda dos bandidos para se acalmar. Tomava remédios controlados e brigava por mim diante de qualquer fuzil que viesse à porta da minha casa me aliciar para o crime. Certos bandidos esquecem, em sua própria comunidade, que ser como ele é muito fácil e é uma peça de fácil substituição. Um deles não pensou quando apontou a arma na cara da minha mãe e disse a ela que eu teria que ajudá-lo no tráfico ou ela morreria. Ele sempre teve o cuidado de fazer as ameaças quando eu não estava em casa, mas nesse dia eu cismei de matar aula pela primeira vez e passava aqui por perto no instante em que ela renegou meu destino escrito por aquele bandido, recebendo, ato contínuo, um tapa na cara. Não corri em cima dele nem dela, me escondi na lanchonete, esperando a hora de ele sair dali para voltar para casa. Na mesma semana mamãe me transferiu para uma escola de tempo integral, o transporte me deixava na porta da favela, e aquele bandido me encarava todo dia que eu passava por ele. Tinha que dissimular uma expressão de indiferença para não alertá-lo do perigo de eu tê-lo visto naquele dia. Passamos uns quatro anos nessa rotina, nesse meio tempo pouca coisa aconteceu, à exceção da morte do meu avô, minha mãe ter parado de fumar e beber quase ao mesmo tempo em que eu comecei. Quando o Juninho - o cara que tinha batido na minha mãe - me viu fumando um cigarro, deve ter saltitado de alegria. Recebi do cara, por intermédio do Fabinho, um amigo de infância - eu era criança ainda, apesar de fumar e beber escondido - que acabou por cair nas teias do tráfico, um convite. Ganharia quantos tênis eu quisesse, quantas bermudas e bonés só para ficar na porta da favela e avisar quando os canas chegassem. Não dei uma resposta definitiva, mas fiquei de passar na casa dele no dia seguinte. Tive uma noite em claro, as imagens dos corpos arrastados e a do meu próprio pai, que não vi e evitava a todo custo formá-la em meus sonhos, pululavam e se fundiam em histórias idênticas, como mesmo princípio e fim. Não entendo porque dediquei aquela noite a pensar nisso, já que tinha muito bem definido um plano para tudo isso. Pela manhã, bati à porta do escritório do Juninho e ele abriu um sorriso que até me deu medo, como se já soubesse cada palavra do que eu diria a partir daquele momento. Contei toda uma história sobre injustiça social, que estava ali para brigar pelo direito dos moradores e colaborar para que um dia o poder paralelo suplantasse o poder público etc. O fato é que o cara acreditou e me pegou pela mão para conhecer o movimento, toda a hierarquia que tinha que ser respeitada. Um poder muito bem distribuído, com funções definidas para cada cabeça, ações sincronizadas que invariavelmente deveriam ser analisadas e aprovadas pela alta cúpula do tráfico, análise de riscos, me senti numa das empresas que eu vislumbrava trabalhar quando eu lia os meus romances. Na hora não compreendi, mas hoje eu entendo o êxito dessas facções, anos-luz à frente de toda a segurança pública. Precisei de apenas uma semana para executar meu plano: matar o Juninho. Com o aval do Tunga, seu arqui-rival e sedento pelo poder da favela, consegui um lugar a sós com o então chefão, com a desculpa de discutir alguns pontos frágeis das bocas. Mais uma vez graças aos livros, eu descobri que arsênico era um veneno foda e consegui com um amigo da escola que tinha um pai químico, ou algo do tipo. Durante a conversa, enquanto bebíamos nossa Brahma - até aquele momento, só bebia Cintra quente escondido de mamãe - ele escapou e tendeu o celular, me dando as costas. Foi a hora em que joguei o veneno em seu copo e aguardei ansiosamente pelo próximo gole dele. Quando ele começou a se estrebucha no chão, reagi, com uma pontinha de sorriso no canto da boca e no fundo da alma, surpreso, atônito. Corri à porta gritando por socorro, ao que os baba-ovos de Juninho invadiram o escritório mirando olhares desconfiadíssimos sobre a minha figura acuada, pálida. Fiz-me de desentendido e corri em direção à minha casa, abraçando-me à mamãe e vendo o filme sobre meu pai morto passar com toda a força, com toda a violência que um assassino merece. Chorando horrores, mamãe me deitou sobre seu colo e me fez cafuné até eu dormir. Novamente os pesadelos me perturbaram, dessa vez com mamãe correndo atrás de mim com um pé das suas Havaianas rosa nas mãos, gritando: - Vem cá, seu filho da puta, vou te matar! - Não posso, a senhora também morrerá - eu dizia, também gritando. Ao contrário do que eu imaginava, acordei tranqüilo, não comigo mesmo, mas com o fato de não haver movimentação alguma ao redor da minha casa. Esperava toda a tropa do Juninho espirrando baba por todo o canto, em busca do meu cadáver. Mas soube que Tunga armou um álibi incontestável para mim, jogando a culpa em cima de um de seus traidores, o Joca, cuja ambição, segundo o futuro líder do tráfico na favela, roubou sua insanidade e o fez cometer aquele crime bárbaro. Apesar de estar com um peso até hoje inimaginável na consciência, deu tudo certo, vinguei o que aquele safado do Juninho fizera com mamãe e ganhei a paz na favela, principal motivo da nossa permanência por aqui. Hoje, somos protegidos por Tunga e temos a total liberdade dentro da comunidade, sem pra isso ter que nos envolvermos com o tráfico. Uma das ruas até ganhou o nome do meu pai, o beco onde moro, e, embora eu tenha passado por tudo isso, ainda me sinto bem aqui. Tento manter viva dentro de mim as boas lembranças, dos meus amigos de infância, das brincadeiras, das merdas que fazíamos juntos, mas aprendi a conviver com a dor, o sofrimento, fazendo-me mais forte e mais tolerante com a vida, o que me diferencia da maioria dos caras da minha idade: transitar entre o bem e o mal com a mesma naturalidade. *
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