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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
30.9.07 11:50
Essencialidades
Uma conseqüência das mais fascinantes da vida é a possibilidade de histórias que ela nos entrega. Fato transcendental, o homem corre em busca de sentidos para a vida, hipóteses que expliquem tamanha dedicação em prol de algo que sequer se tem conhecimento pleno. Implica em justificar e, sobretudo, compreender as relações essenciais nas quais nossa vida se baseia. Sou muito criticado quando se trata de expressar sentimentos tão óbvios, que me saltam aos olhos, mas que, para os outros, dependem de uma prova concreta. Concretizar sentimentos, não é preciso divagar tanto para notar aí uma discrepância, mas insistem em justificar paixões, amizades, amores, com demonstrações públicas de afeto, como diz o orkut. Fatos são semelhantes, ocorrem simultaneamente em vários lugares com vários propósitos, de modo que um mesmo fato pode ser usado para justificar tantos sentimentos quanto exigir a situação. É preferível crer em algo não visível, pode ser uma fuga para futuras decepções, acreditar no desconhecido é se encorajar escondendo-se em uma subjetiva inocência. Entretanto, quando se acredita em rosas vermelhas, mensagens românticas etc, só há duas explicações plausíveis: ou realmente se confia ou se esquiva do óbvio. De qualquer maneira, é de se expor ao risco. Diz-se muito do risco de cair de cabeça em uma - talvez vã - promessa, mas os que caem são os puros de alma, os esperançosos, os remanescentes daquele romantismo extinto nos dias de hoje. Amizades sofrem do mesmo mal. Se você perceber um dia que todos te amam, que todos se dizem seus amigos, desconfie. Ser amigo se tornou, tal qual estar apaixonado, uma banalidade. Conheço tanta gente que se refere a qualquer conhecido como amigo ou amiga, sem diferença para uma amizade de anos ou aquela instantânea, na mesa do bar, que começo a me sentir ofendido quando se referem a mim dessa maneira. Não me vem à cabeça uma situação na qual me utilizei desse artifício para ser bem quisto em algum lugar. Posso até te conhecer, achar você bem legal, gosto de você, mas só te conheço, não sou teu amigo. Sou fã dos ditados populares - os mais chumbregas - por conseguirem sintetizar algo que às vezes é estudado por décadas, discutido entre grupos e grupos de cientistas, resultando em uma dissertação repleta de eufemismos - talvez isso justifique o efemerismo com que se é tratado hoje o assunto. Amor e amizade só se reconhecem com a correspondência, e só se afirmam com a falta. Não se tem notícia em minha curta vida de alguém que tenha passado um dia maravilhoso com alguém e tenha chegado em casa dizendo "estou apaixonado(a)". Nos rendemos ao amor ou a uma amizade por meio de um desabafo, diante de lágrimas, quando mais precisamos delas. A ausência não convive com a felicidade. O poeta que diz amar quando sofre se equivoca em afirmar que é ali que o amor reside. Notou-se sua presença naquele momento, e quando é inevitável - e sempre é - ser feliz sozinho, o que resta é cair no mundo e procurar a nova tampa da panela, esperando sempre uma reciprocidade. Afinal, fatos são fatos, e o mais incontestável e incômodo é saber que, em algum canto, haverá alguém que irá suplantar, assim que houver oportunidade, com surpreendente naturalidade o que era tratado com tanta complexidade. *
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Nova Iguaçu, Rio de Janeiro
9.9.07 21:00
Fuga n° ∞
Aos poucos, a brasa tomava conta do cigarro abandonado na mão fora do carro, com a ajuda do vento que redesenhava o mosaico de folhas secas na calçada onde tinha parado seu carro. Esperava por ela mais por desejo de lhe participar o texto que elaborara durante a semana do que por vontade de vê-la. Há quanto tempo não sentia vontade de vê-la, nem sabia mais. Pensou nisso enquanto seu olhar se perdia num dos incertos movimentos das folhas, na descida trepidante do carro na contramão, na freguesia moribunda da sorveteria ao lado - apenas duas pessoas entraram lá, uma era a mãe do balconista pedindo um real. Se não tivesse sabido que, a poucos metros de onde se localizava, há poucos dias, um homem fora assassinado com seis tiros no rosto, julgaria ser aquele bairro o ideal para criar sua família. Aos poucos, o monstro - se conseguirmos fugir do sentido tenebroso que nos dá essa palavra, chegaremos ao real significado dela no assunto - que se formara e que o perseguia sem vontade alguma de abandoná-lo fora tomando forma e sentido. O encontro, casual, despretensioso, intermediado pro amigos, não lhe encheu os olhos. Tinha visto, sim, que era uma boa companhia, inquestionável, mas não o que passou a perceber já no primeiro arrastar de cadeiras, visando uma aproximação. As maquetes feitas com os guardanapos e canudos do lanche digerido há pouco tempo cantava a pedra. Concluíram, sem influência direta de ambos, que era a casa na qual morariam. O primeiro beijo, logo depois, viria com a certeza de que mais um amor de carnaval se iniciava, e com o passar dos dias, com o passar das festividades, não se encerrava. No dia dos namorados não acreditava mais em um desatino do coração nem um pouco carente - e isso lhe causava estranheza. Procurava respostas em seu próprio relacionamento, alguma falha, uma lacuna que lhe permitia a fuga em busca daquilo que lhe faltava. Mas não lhe faltava nada. Pelo contrário, não se lembrava de ter estado tão feliz em seus conturbados namoros. E ao mesmo tempo, quanta confusão, via uma diferença naquela colombina. Sentia que a cada dia se envolviam mais, suas almas se entrelaçavam com mais facilidade a cada encontro, assim como seus corpos se combinavam e se despiam de qualquer pudor. Já não via outra saída senão a de fugir do monstro, correr impulsivamente, sem hesitar em olhar para trás. Até o fez, mas no meio do caminho, não uma só vez, retornou e quis, do fundo do seu coração, recomeçar o caso, ainda que com a certeza de que novamente interromperia e fugiria, fugiria. Do alto de sua prepotência, ou baseado numa certeza explicável por apenas algum sentimento superior ao que lhe creditava naquela situação, imaginava o pranto da menina, a porção de tristeza que jogava no peito dela a cada sumiço. Decidiu, repentinamente, que o melhor a ser feito era aquilo mesmo, esperava apenas sua própria atitude. O cigarro, enfim, expirara. Jogou a guimba fora e olhou para o corredor que se inclinava íngreme em uma escada cujo fim nunca soube ao certo, mas de onde sempre vira surgir suas coxas roliças - um dia comentou essa peculiaridade com a menina, cuja reação não se lembrava ao certo, estava meio bêbado. E ali, novamente, as esperava com tanta ansiedade. Por que certas coisas vêm em horas tão inoportunas, uma pergunta corriqueira agora se unia ao seu cotidiano, vivenciava tão intensamente essa questão, trabalhava em cima dela à medida que se desdobrava em não deixar transparecer ao outro hemisfério do seu círculo de amizades. Talvez fosse a clandestinidade o tempero de tudo, o medo da revelação deixava mais saboroso cada encontro bem-sucedido. Mas era pouco argumento para tanto rebuliço que lhe perturbava. Buscava mais de si, já que previa - e pouco tempo depois teve certeza - o que lhe esperava do outro lado. Buscava algo que a confortasse, já que se sentia incapaz de dar tanto amor desmedido a mais de uma. Parecia-lhe impossível, ao passo que não pensava em largar de mão algo tão intenso. Manobrou o carro ao ouvir os passos descerem a escada. Nem reparou nas coxas. Nem quis. Cantou os pneus e apenas um comedido olhar pelo retrovisor pôde mirar o contorno da menina, desolada, no portão, e inventar as nuances que naquele momento deviam passear pelo rosto dela. *
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